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Após se reunir com infratores ambientais, Salles suspende fiscalização na reserva Chico Mendes

Em 6 de novembro 2019, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se reuniu com infratores ambientais da Resex Chico Mendes (dois já condenados); após o encontro, intermediado pela bancada do Acre, ele determinou a suspensão da fiscalização da Resex Chico Mendes, a segunda unidade de conservação mais desmatada deste ano – Foto acima Divulgação

Fabiano Maisonnave

O autor de uma ameaça de morte contra um servidor do ICMBio.
Um ex-procurador-geral de Justiça do Acre acusado de abrir uma estrada ilegal dentro da
Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes. Um condenado por desmatamento. Uma
fazendeira com um haras em uma unidade de conservação criada para atender a
seringueiros.

Ao todo, cinco infratores ambientais participaram de uma reunião com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no dia 6 de novembro, em Brasília, para discutir o futuro da primeira Resex do país e reclamar da suposta truculência de agentes do. No final, conseguiram que o governo federal suspendesse a fiscalização dentro da unidade de conservação.

Somente neste ano, a Resex já perdeu 74,5 km de floresta, segundo o sistema
do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), um aumento de 203% em relação ao ano
passado. A área perdida equivale a quase dois Parques Nacionais da Tijuca (RJ), a maior
floresta urbana do mundo, e é a maior da série histórica, iniciada em 2008.

Um dos presentes na reunião em Brasília, intermediada por parlamentares acrianos, foi
o grileiro Rodrigo Oliveira Santos.Em 2013, ele ameaçou de morte um servidor do ICMBio no
Acre que o multou por desmatamento de 69 hectares dentro da Resex. “Cadeia, a gente
entra e a gente sai. Caixão, não, só tem entrada, não tem saída”, disse, em conversa
gravada e entregue à Polícia Federal.

 


1. Gutierrri Ferreira da Silva. Condenado pela
Justiça Federal por desmatamento dentro da
Reserva Chico Mendes (Resex)
2. Gessi Capelão (MDB). Vereador de Xapuri,
defende a expansão do gado dentro da Resex e
a redução do seu território
3. Homem não identificado (está atrás dos
demais)
4. Fátima Abreu Sarkis. Tem um haras dentro
da Resex, onde agora cria gado. Autuada pelo
ICMBio e pelo Ibama, conseguiu liminar na
Justiça para ficar na reserva
5. Deputada federal Mara Rocha (PSDB).
Prepara projeto de lei que diminui área da
Resex Chico Mendes
6. Jorgenei da Silva Ribeiro. Ex-procuradorgeral do Acre e advogado, mora em Brasília.
Autuado pelo ICMBio e denunciado à Justiça
Federal por abrir uma estrada ilegal dentro da
Resex, desmatando 71,5 hectares
7. Deputado federal Alan Rick (DEM-AC)
8. Uenderson de Brito. (único sentado) Tem
400 hectares dentro da Resex, onde cria gado.
Autuado pelo ICMBio por desmatamento e
quebra de embargo, foi notificado para sair,
mas obteve liminar na Justiça Federal
9. Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente
10. Senadora Mailza Gomes (PP-AC). Da
bancada evangélica, é condenada em segunda
instância por improbidade administrativa
11. Deputada federal Vanda Milani (SD-AC).
Cunhada do “deputado da motosserra”
Hildebrando Pascoal, condenado por
homicídio e formação de quadrilha. No ano
passado, ele gravou um vídeo de apoio
“incondicional” para sua campanha. É mãe do
04/12/2019 quem-foto-meio-ambiente – Ciência – Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/12/apos-se-reunir-com-infratores-ambientais-salles-suspende-fiscalizacao-na-reserva-chico-mende… 2/2
secretário de Meio Ambiente do AC, Israel
Milani
12. Deputado federal Jesus Sérgio (PDT-AC)
13. Rodrigo Oliveira Santos. Desmatador e
grileiro da Resex, foi sentenciado em primeira
instância pela Justiça Federal e preso em
flagrante por desmatamento. Indiciado por
ameaçar servidor do ICMBio de morte
14. Senador Sérgio Petecão (PSD-AC)

Em novembro de 2016, a Justiça Federal determinou a reintegração de posse contra
Santos. Pecuarista, ele não é morador tradicional, além de exercer atividade econômica
incompatível com o regulamento da reserva extrativista. Em 6 de novembro 2019, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se reuniu com infratores ambientais da Resex Chico Mendes (dois já condenados); após o encontro, intermediado pela bancada do Acre, ele determinou a suspensão da fiscalização da Resex Chico Mendes, a segunda unidade de conservação mais desmatada deste ano .

Em julho do ano passado, o grileiro ficou preso por alguns dias a pedido do Ministério
Público Federal (MPF), após ter sido flagrado abrindo um ramal (estrada de terra) ilegal
dentro da Resex. Acabou solto após o juiz entender que o ICMBio não poderia ter dado
voz de prisão.

O ramal estaria sendo financiado pelo ex-procurador-geral do Acre e advogado Jorgenei
da Silva Ribeiro, também presente na reunião em Brasília, onde tem residência. Em
setembro, ele foi denunciado pelo MPF à Justiça Federal pelo desmatamento de 71,5
hectares para a abertura da estrada.

A via seria usada para escoamento de madeira. Ribeiro diz ser o dono de uma área
denominada Seringal Senegal, vizinho à Resex. Segundo relatório da CPI da Grilagem,
concluída em 2001, trata-se de uma área sem título definitivo expedido pelo Poder
Público e registrada irregularmente no cartório da cidade de Sena Madureira (AC).
“Foram abertas na floresta: uma estrada principal, uma estrada secundária, e uma
clareira ao lado de um igarapé onde foi construído um local típico de acampamento”, diz
o MPF, que o acusa de causar dano direto a uma unidade de conservação. A pena prevista
é de um a cinco anos de prisão.

BANCADA

Entre os parlamentares acreanos na reunião está a deputada federal Mara Rocha (PSDB).
Junto com o senador Marcio Bittar (MDB-AC), ela prepara um projeto de lei para reduzir
a Chico Mendes,  retirando da unidade de conservação áreas tomadas pela pecuária.
Se aprovada, a redução pode beneficiar Santos e outros três infratores ambientais
presentes na reunião, os pecuaristas Uenderson de Brito, Fátima Sarkis e Gutierri
Ferreira da Silva, todos criadores de gado dentro da Resex.

Participante do encontro, o vereador de Xapuri Gessi Capelão (MDB) disse que a
proposta é excluir 19 mil hectares da Resex, o que representa 2% da unidade de
conservação. Segundo ele, trata-se de áreas próximas a Xapuri onde predomina a
pecuária e não tem mais o perfil extrativista.

O vereador confirmou a ordem de paralisar a fiscalização. “O coronel Homero [Cerqueira,
presidente do ICMBio] pediu pra gente: ‘Vamos suspender a operação devido ao abuso de
autoridade por parte do ICMBIO, portanto peço que não degrade as terras.’ Isso eu estou
levando aos produtores rurais da Resex para que não degradem mais as terras, senão
daqui a pouco não teremos as matas”, afirmou à Folha.

Sem fiscalização, o crime ambiental continua. No último dia 27, a reportagem flagrou a
queimada de uma área que havia sido embargada pelo ICMBio em outubro. O lote
destruído foi negociado ilegalmente entre dois moradores da Resex.
A reportagem enviou perguntas por escrito ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo
Salles, sobre a Resex Chico Mendes, mas, como tem sido a praxe em sua gestão, o pedido
de esclarecimento foi ignorado.
Na semana passada, a Folha também pediu uma entrevista para a deputada Mara Rocha,
sem resposta.

Fonte: Folha de S. Paulo

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