Imprensa contribui para a destruição ao não olhar a realidade indígena, diz ativista

Imprensa contribui para a destruição ao não olhar a realidade indígena, diz ativista

Legenda da foto acima: Thiago Karai Jekupé, ativista da Terra Indígena Guarani, no auditório da Folha – Bruno Santos/Folhapress
SÃO PAULO

Como parte dos projetos especiais dos 100 anos da Folha, o jornal convidou 13 integrantes de grupos sub-representados no jornalismo profissional praticado no Brasil. Eles expõem episódios de preconceito e desinformação, além de problemas na relação com jornalistas e na forma como a imprensa noticia —ou não noticia— questões que os afetam direta ou indiretamente.

Batizada de “E Eu? – O Jornalismo Precisa me Ouvir”, a série é formada por vídeos e depoimentos em forma de texto.

Ativista da Terra Indígena Jaraguá, na zona norte de São Paulo, Thiago Karai Jekupé, 26 anos, fala sobre a representação dos indígenas na imprensa. Ele é conhecido por atuar na defesa do território contra projetos imobiliários. Leia entrevista ou assista ao vídeo (há uma versão com recursos de acessibilidade logo abaixo).

VERSÃO COM RECURSOS DE ACESSIBILIDADE

Minha avó foi a primeira cacique mulher no estado de São Paulo a assumir uma comunidade indígena. Ela mal sabia ler, então sempre pedia que os netos a acompanhassem nas reuniões e entendessem a situação para que ela pudesse assinar documentos. Fui aprendendo dessa forma. Quando ela faleceu, ficamos meio confusos —como que a gente vai ter um novo cacique na aldeia?

A Funai [Fundação Nacional do Índio] falava: “Vocês têm que ter o capitão da tribo, a liderança.” Hoje entendo que não, a gente precisa ter pessoas que estejam dispostas a lutar por um futuro.

Fui assumindo minhas responsabilidades. Comecei a ir a reuniões que envolviam temas relacionados à aldeia, ao direito indigenista. Passei um bom tempo como conselheiro distrital de saúde indígena e tive a experiência de entender a política do não-indígena: como eles cortam o orçamento, como mudam a lei, o que da Constituição é colocado em prática e o que não é.

O branco não tem palavra, por isso tem papel. Quando digo isso, olho para a história do país. Os navios chegaram até aqui e tudo eles anotavam, porque a história era o que eles iam escrever.

Thiago Karai segura um colar durante entrevista à Folha
Thiago Karai segura um colar durante entrevista à Folha – Bruno Santos/Folhapress

A lei deveria ser usada para proteger o interesse de quem está ali. Tem a portaria 60/2015, que garante que qualquer projeto de urbanização que venha a danificar o meio ambiente e esteja próximo à terra indígena tem que ter um estudo de impacto ambiental e sociocultural.

Só que na prática a lei não serve. Vem uma construtora, derruba mais de 500 árvores e acha que eles podem fazer o que bem entendem. Não adianta. O próprio Ministério Público diz que não temos direito porque somos “urbanizados”, “aculturados”. Acham que se o indígena está próximo à cidade, à linha de trem, usa telefone, usa roupa, ele não é mais indígena.

Não dá para falar que o branco tem dívida histórica com o indígena porque a gente não emprestou nada para ninguém. Não existe dívida, existe crime. Um crime cometido pelo não-indígena —invasão, estupro, tortura— e que depois virou símbolo de orgulho: tem a rodovia dos Bandeirantes, a Anhanguera, o palácio dos Bandeirantes, a TV Bandeirantes. Essa crueldade é viva.

A gente dorme e acorda pensando: quando nossa comunidade vai ter que sair daqui para passar um outro empreendimento?

A gente não é levado a sério. A morte do indígena não é levada a sério. A perda do território não é levada a sério. Se está tendo desmanche dentro da Funai, ninguém enxerga. Eles criam uma cortina de fumaça e a boiada passa.

Folha de S. Paulo

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