Em defesa dos direitos dos povos indígenas da Amazônia

Em defesa dos direitos dos povos indígenas da Amazônia

Por Renato Athias (*)

Acompanhei pela grande imprensa o acontecimento do Sínodo da Amazônia promovido pela Igreja Católica e realizado em Roma, no Vaticano durante os dias 6 a 27 de outubro de 2019. Eu vi pessoas conhecidas estarem presentes, nesse sínodo, como assessores especiais. Pessoalmente eu achei uma iniciativa muito importante nos tempos atuais de grandes calamidades na Amazônia desses nove países da América do Sul.

O Papa Francisco fez a convocatória e, eu o achei super simpático por tomar essa iniciativa, deveras esperada, pois essa temática é muito oportuna e necessária. Se já no passado já era urgente, mais do que nunca nos tempos atuais. Quem sabe? Para fazer parar as ações completamente extrativistas, violentas e desrespeitosas contra os povos indígenas dessa imensa região denominada Amazônia. Pospostas de intervenção clara contra o proselitismo e renovar a ação da Igreja, muito mais comprometida com os interesses dos povos indígenas desses lugares mais longínquos, onde missionários católicos estão presentes desde o século XVI.

Em nome dessa ação missionária nas Américas, milhares de indígenas foram massacrados, mortos, presos, evangelizados à força pela cruz e pela espada, por um exército de missionários que chegaram dos quatro cantos do mundo para salvar as almas dos povos indígenas da Amazônia. Quem sabe podemos achar as estatísticas destes massacres cometidos por essas ações salvacionistas promovidas pela cruz e pela espada.

As inúmeras denúncias contra as ações proselitistas de representantes da Igreja Católica, das Guerras Justas e Guerras de Resgate, já foram efetivadas em vários lugares nessa Nuestra América e no Velho Mundo.  Lembro-me agora de Bartolomeu de Las Casas que, em 1550, talvez tenha sido o primeiro bispo a denunciar os maus tratos e a mortandade indígena cometidas em nome da Igreja. Mesmo com um tribunal montado na Corte em Valladolid e, Las Casas ter ganho a disputa contra Juan G. de Sepúlveda, que era a favor dessas crueldades, a Igreja não parou de fazer mortes entre os povos indígenas.

Foi impossível romper o cerco dos missionários e do Santo Ofício que dura até 1821, dominando o mundo católico, com doutrinadores oficiais que vão sentenciar as mortes nas fogueiras nos Autos de Fé praticados em todo mundo hispano-português, onde milhares de pessoas são mortas cruelmente em nome de Jesus Cristo. E quantos outros massacres foram feitos em nome da exploração das terras indígenas em toda Amazônia, escondidos em uma estatística não declarada que envergonharia qualquer nação do mundo.

Outros sínodos já aconteceram antes. Encíclicas do Concílio Vaticano II foram publicadas, como aquela denominada “Ad Gentis” (1965). Estas ficaram apenas no papel e nada de mudança concreta na ação missionária, cada vez mais caduca e violenta. Até o presente presenciou-se apenas as renovações cosméticas do Vaticano II. O primeiro Sínodo das Américas realizado em Medellín, na Colômbia,  em 1968, também refletiu sobre essa ação missionária e, não conseguiu, de fato, conter as ações de mudanças nos paradigmas da evangelização estrategicamente montada desde os primórdios da colonização nas Américas.

No Brasil, já no século XX, muitos bispos denunciam as atrocidades contra os povos indígenas em documentos públicos como o  famoso “Documento Y-Juca Pirama – o Indio: Aquele Que Deve Morrer,” de 1973.  Outras denúncias são feitas por antropólogos e cientistas sociais que se reúnem em Barbados, e que clamam por mais respeito, autodeterminação para povos indígenas e, pedem claramente o fim dessas ações missionárias realizadas pelas igrejas entre os povos indígenas, e que estes tem o direito de escolher seus modos próprios de vida (Declaração de Barbados I, janeiro de 1971).

No Brasil, muitos missionários e leigos do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) assumem o compromisso de não realizar proselitismo em áreas indígenas. Porém no momento em que a instituição começou a fazer parte da CNBB, em 1983, as ações dos CIMI passaram a ser novamente de Pastoral Indigenista. Muitos bispos, ligados à teologia da libertação, entre eles Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduíno, assumem a postura de Bartolomeu de Las Casas, mas estes e outros clérigos são silenciados sistematicamente pela Cúria Romana.

O Papa Francisco na abertura do Sínodo da Amazônia (Fotos: Vatican Media)

Não sei o que foi discutido nos Sínodo da Amazônia, e nem sei exatamente o resultado desse importante encontro; porém, eu sei que todas as vezes que a Igreja fez eventos grandiosos, como esse, foi para aperfeiçoar as suas ações pastorais de permanecer dominando e promovendo novas estratégias de proselitismo. Acho que agora bastava simplesmente o Vaticano pedir desculpas pelas atrocidades cometidas e, deixasse realmente, os povos indígenas da Amazônia buscarem por eles próprios a maneira, jeito e a forma de vida de seus interesses, baseados na cultura de cada um desses povos resistentes. O que me parece, é que nem a autodeterminação foi defendida em mais um dos mais importantes Sínodo da Igreja, e, muito menos, saiu o pedido de Perdão aos  Povos Indígenas tão esperado por séculos. Mais uma vez a Igreja perde o momento histórico oportuno de estar ao lado dos Povos Indígenas.


(*) Renato Athias integra o Departamento de Antropologia e Museologia Universidade Federal de Pernambuco, onde é professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPE. Athias é Master Interuniversitario de la Univesidad de Salamanca, Diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade (NEPE), Vice-Presidente da Comissão de Museus e Patrimonio Cultural da IUAES e Conselheiro da Sociedade de Antropologia para as Terras Baixas Sul Americanas (SALSA).

Fonte: Amazônia Real

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