O jihadista não conseguiu me degolar: “Quem é você? Eu não consigo mexer o facão!”

O jihadista não conseguiu me degolar: “Quem é você? Eu não consigo mexer o facão!”

O arrepiante relato do padre franciscano Abuna Nirwan no Iraque

Ope. Abuna Nirwan é um franciscano que nasceu no Iraque e, antes de ser ordenado sacerdote, estudou medicina. Foi destinado à Terra Santa e, em 2004, ganhou das Irmãs Dominicanas do Rosário uma relíquia da sua fundadora e um terço usado por ela. O padre passou a trazer a relíquia e o rosário sempre consigo.

A fundadora em questão é Santa Marie Alphonsine Danil Ghattas, cristã palestina canonizada em 2015 pelo Papa Francisco. Em 2009, quando o Papa Bento XVI aprovou o milagre para a sua beatificação, a Santa Sé pediu a exumação do corpo da religiosa. Esta missão costuma caber ao bispo local, que, para realizá-la, designa um médico. E esse médico foi justamente o padre Abuna Nirwan.

Em 2004, a relíquia e o rosário… Em 2009, a exumação… E esses dois fatos extraordinários não foram os únicos que ligaram o padre Nirwan àquela santa fundadora.

Dois anos antes da aprovação do Papa Bento à beatificação da religiosa, mais um fato simplesmente arrepiante envolvendo o pe. Nirwan e a madre Marie Alphonsine tinha sido relatado pelo padre Santiago Quemada no seu blog “Un sacerdote en Tierra Santa”.

Eis o relato:

A história que vamos contar aconteceu em 14 de julho de 2007. Abuna Nirwan foi visitar a sua família no Iraque e, para isso, precisou contratar um táxi. Ele mesmo relatou o caso na homilia de uma missa que celebrou em Bet Yalla. O padre Nirwan contou:

Não havia possibilidade de ir de avião para visitar a minha família. Era proibido. O meio de transporte era o carro. Meu plano era chegar a Bagdá e ir de lá para Mossul, onde viviam os meus pais.O motorista tinha medo por causa da situação no Iraque. Uma família, formada pelo pai, a mãe e uma menininha de dois anos, pediu para viajar conosco. O taxista me falou do pedido e eu não vi nenhum inconveniente. Eram muçulmanos. O motorista era cristão. Ele disse que havia lugar no carro e que eles podiam ir conosco. Paramos num posto de combustível e outro homem jovem, muçulmano, também pediu para ir junto até Mossul. Como ainda restava um assento, ele também foi aceito.A fronteira entre a Jordânia e o Iraque só abre quando amanhece. Quando o sol se levantou, uma fila de cinquenta ou sessenta carros foi avançando lentamente, todos juntos.Seguimos a viagem. Depois de mais de uma hora, chegamos a um lugar onde estavam fazendo uma inspeção. Preparamos os passaportes. O motorista nos disse: “Tenho medo desse grupo”. Antes era um posto militar, mas uma organização terrorista islâmica havia matado os militares e tomado o controle do local.Quando chegamos, eles nos pediram os passaportes sem nos fazer descer do carro. Levaram os passaportes a um escritório. A pessoa voltou, se dirigiu a mim e disse: ‘Padre, vamos continuar a investigação. Podem ir até o escritório mais à frente. Depois já é o deserto”. “Muito bem”, respondi. Caminhamos uns quinze minutos até chegar à cabana a que eles se referiam.Quando chegamos à cabana, saíram dois homens de rosto coberto. Um deles tinha uma câmera em uma mão e um facão na outra. O outro era barbudo e estava segurando o alcorão. Chegaram até nós e um deles perguntou: “Padre, de onde está vindo?”. Respondi que vinha da Jordânia. Depois ele perguntou ao motorista.Depois se dirigiu ao rapaz que vinha conosco, o agarrou por trás com os braços e o matou com o facão. Amarraram as minhas mãos por trás das costas e disseram:“Estamos gravando isto para a Al-Jazeera. Quer dizer algumas palavras? Tem menos de um minuto”.Eu respondi:“Não, só quero rezar”.Eles me deram um minuto para rezar.Depois um deles me empurrou pelo ombro para baixo até eu ficar de joelhos e me disse:“Você é clérigo. É proibido que o seu sangue caia no chão porque é sacrilégio”.Por isso ele foi pegar um balde e voltou com ele para me degolar. Não sei o que rezei naquele momento. Senti muito medo e disse a Maria Alphonsine:“Não pode ser por acaso que eu trago você comigo. Se é preciso que nosso Senhor me leve ainda jovem, estou pronto. Mas, se não é, eu te peço que ninguém mais morra”.Ele pegou a minha cabeça, segurou meu ombro com força e levantou o facão. Uns instantes de silêncio e de repente ele perguntou:“Quem é você?”Respondi:“Um frade”.“E por que eu não consigo mexer o facão? Quem é você?”.E, sem me deixar responder, prosseguiu:“Padre, você e todos voltem para o carro”.Fomos de volta até o veículo. Daquele momento em diante, eu perdi o medo da morte. Sei que um dia morrerei, mas agora é mais claro que vai ser só quando Deus quiser. Desde aquele momento, eu não tenho medo de nada nem de ninguém. O que vier a me acontecer é porque é vontade de Deus e Ele vai me dar a força para acolher a Sua cruz. O importante é ter fé. Deus cuida dos que acreditam n’Ele”.

Traduzido, com adaptações, de artigo publicado pelo site Religión en Libertad (em espanhol)

Sob Bolsonaro: “Temos medo de mais mortes, os yanomami estão desaparecendo”

Liderança que denunciou desaparecimento de criança e estupro e morte de adolescente na Terra Indígena Yanomami relata ameaças de garimpeiros. “É muito assustador. Os yanomami estão totalmente abandonados.”

Uma semana após divulgar um vídeo denunciando o desaparecimento de uma mulher, de uma criança de 3 anos e a morte de uma adolescente de 12 anos vítima de estupro em consequência da ação de garimpeiros na Terra Indígena (TI) Yanomami, Júnior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Yek’wana (Condisi-YY), ainda tenta entender os detalhes da tragédia.

Os casos foram relatados por indígenas da comunidade Aracaçá, localizada numa área em Roraima que viu o número de invasores explodir nos últimos anos, segundo a Hutukara Fundação Yanomami.

Após a denúncia, representantes da Polícia Federal, Ministério Público Federal, Fundação Nacional do Índio (Funai) e Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) visitaram o local e avistaram a comunidade em chamas.

As versões dos participantes da missão especial, no entanto, são divergentes. Enquanto o Ministério Público afirmou, por meio de nota, que “não foram encontrados indícios materiais da prática dos crimes de homicídio e estupro ou de óbito por afogamento”, o Condisi diz o contrário.

A denúncia suscitou uma onda de comoção na internet com a campanha “Cadê os Yanomami”.

Em carta, o conselho divulgou que alguns indígenas que moravam na comunidade relataram que “não poderiam falar pois teriam recebido 5 gramas de ouro dos garimpeiros para manter o silêncio”.

Depois desse breve relato ao Condisi durante a visita, nenhum dos 25 moradores da comunidade Aracaçá teria sido encontrado.

O fogo nas habitações, segundo análise posterior de indígenas que verificaram as imagens gravadas durante a missão, faria parte de uma tradição: após a morte de um membro querido, a aldeia é queimada e os moradores buscam um novo lugar para viver.

Em entrevista à DW Brasil, Júnior Hekuari Yanomami diz que o medo de que novas mortes de yanomami por garimpeiros é grande, e que os invasores se sentem donos das terras. “Eles falam para as lideranças: ‘Se vocês denunciarem, a gente vai matar a comunidade inteira’. É muito assustador o que está acontecendo”, declara.

“Temos medo de que mais mortes aconteçam nas comunidades. Isso está fazendo com que nós, os yanomami, desapareçamos”, diz.

A Hutukara estima que existam atualmente mais de 40 mil garimpeiros na TI Yanomami, uma situação parecida à observada na década de 1980, que antecedeu a demarcação do território, finalizada em 25 de maio de 1992.

“O povo yanomami está totalmente abandonado. O governo federal é culpado. Ele não está nos protegendo”, afirma Júnior Hekurari Yanomami.

DW BrasilJá se sabe onde estão os indígenas que habitavam a aldeia Aracaçá? Foi possível obter novos relatos mais detalhados do que aconteceu?

Júnior Hekurari Yanomami: Ainda não temos informações concretas. Temos informações de que o povo da aldeia Aracaçá está dentro da floresta. Eu não consegui falar lá hoje (quarta-feira, 04/05) porque está chovendo muito. A comunicação que a gente faz é por radiofonia. Estou esperando o pessoal me ligar para dar mais informações.

Eu mandei alguns indígenas para procurar os parentes desaparecidos. Segundo o censo nosso, são 25 indígenas que moravam lá na aldeia. Foi lá que aconteceu o caso da criança de 3 anos, que foi jogada no rio Uraricoera, e o estupro e morte da menina de 12 anos.

Como os moradores da aldeia conseguiram avisar vocês sobre os crimes?

Uma outra aldeia nos comunicou. Os yanomami atacados comunicaram essa outra aldeia, que nos contou. O ataque foi causado por garimpeiros.

Como é a presença de garimpeiros na região desse ataque?

É muito grande! O garimpo está dentro da aldeia. A comunidade está tomada por garimpeiros! Tem muitos, muitos mesmo. Só naquele local, no Aracaçá, são uns 10 mil garimpeiros.

Área de garimpo na Terra Indígena Yanomami, em 2021
Área de garimpo na Terra Indígena Yanomami, em 2021Foto: Acervo ISA

 

Quais são as maiores preocupações do Condisi neste momento?

Nossa preocupação é com a segurança dos yanomami e das crianças, principalmente. A gente já denunciou, as autoridades já têm conhecimento, a Polícia Federal tem conhecimento, o Ministério Público Federal já sabe.

Temos medo de que mais mortes aconteçam nas comunidades. Isso está fazendo com que nós, os yanomami, desapareçamos.

Precisamos que o governo retire os garimpeiros da Terra Indígena Yanomami! Como eles já estão lá há muito, há quatro anos que eles invadiram a terra, foi tudo rápido, e eles entraram em muitos, alguns garimpeiros estão ameaçando as lideranças, se sentindo donos da terra.

Eles falam para as lideranças: “Se vocês denunciarem, a gente vai matar a comunidade inteira”. É muito assustador o que está acontecendo.

A gente tem muitos relatos fortes, a gente tem vídeos mostrando tudo o que está acontecendo.

Faz quase um ano que houve um ataque numa outra aldeia na Terra Indígena Yanomami, na região de Palimiú, quando uma criança morreu afogada tentando se proteger dos invasores. O que mudou para as comunidades?

Dia 10 de maio vai completar um ano. Foi um tiroteio. Desde lá a gente não tem segurança nenhuma.

A Fundação Hutukara lançou o relatório “Yanomami Sob Ataque” há poucas semanas detalhando a situação, relatando casos de violência sexual e a destruição do território por causa do garimpo. Vocês percebem que está havendo aumento do número de garimpeiros neste ano em relação aos passados?

Sim, está havendo um aumento muito grande. Desde 2019, a entrada dos garimpeiros aumentou bastante. Onde não existia garimpeiro agora tem, e são muitos. Está sendo uma destruição muito rápida.

As denúncias que vocês têm feito desde então trouxeram algum resultado?

Não adiantou nada.

Ano passado, a Polícia Federal fez três ou quatro operações, destruiu muito material, mas os garimpeiros continuaram destruindo normalmente.

Eles têm maquinários, eles têm balsas… Em rios pequenininhos, eles usam maquinário e destroem tudo, a floresta inteira.

Como essas máquinas estão chegando à Terra Indígena Yanomami?

Helicópteros levam tudo. Agora eles não abrem mais pista de avião, agora eles usam helicópteros. São mais de 100 voos por dia.

Diante desse cenário, o que o povo yanomami tem a dizer?

O meu povo yanomami não fala muito o português. Mulheres não falam português, as crianças não sabem o que está acontecendo. Famílias estão tendo que fugir da própria casa… O povo yanomami está totalmente abandonado.

O governo federal é culpado. Ele não está nos protegendo. Nós precisamos de proteção urgente. Porque nós estamos defendendo a vida, a floresta, os rios pra gente poder ter água limpa. Estamos bebendo água contaminada, suja. As crianças, mulheres, a população está adoecendo por causa da contaminação.

Por isso, a gente quer viver em paz. Precisamos cuidar das nossas comunidades sem medo de estar nas nossas casas.

Senador Confúcio Moura recebe Missão Europeia e reafirma compromisso com a preservação dos biomas brasileiros

O encontro, coordenado pelos senadores Confúcio Moura e Jaques Wagner, reafirmou o empenho do Senado Federal com a preservação da Amazônia e dos demais ecossistemas brasileiros

Ao abrir o encontro, o presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado Federal, Jaques Wagner (PT-BA) fez algumas considerações sobre o cenário mundial e criticou a fragilidade dos organismos multilaterais em relação ao avanço do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Em relação ao meio ambiente, Jaques Wagner, expôs a mudança na postura governamental ao afastar o Brasil das mais importantes mesas de negociação sobre o tema. “Se convencionou a acreditar numa falsa dicotomia em que o desenvolvimento, o crescimento, é incompatível com a preservação. Eu não creio nisso. Acho ser possível combinar um tipo de política que dê conta das três dimensões ao mesmo tempo: econômica, social e ambiental”, disse o senador.

Na sua fala, o senador Confúcio Moura avalia que há um conflito permanente entre produção e preservação, que já deveria ter sido superado. “O que vai definir o modelo de desenvolvimento a ser adotado nos países produtores de alimento serão a postura dos consumidores nos países importadores. A exigência por produtos certificados e com garantia de que são produzidos sem agressão ao meio ambiente serão determinantes para a preservação ambiental”, avalia o senador.

Para Confúcio Moura, o trabalho que as organizações não governamentais fazem na Amazônia, no Cerrado e na Caatinga deve ser louvado. “Recentemente, o STF derrubou algumas ações do governo relacionadas ao meio ambiente em função das manifestações destas organizações”, informou o parlamentar.

Continuando, Confúcio Moura, disse que o problema de saneamento básico ainda é um problema a ser enfrentado, para melhorar as condições ambientais no meio urbano. “O Senado Federal aprovou recentemente o Marco Regulatório do Saneamento Básico, instrumento que, esperamos, consiga ajudar no avanço da cobertura dos serviços de esgotamento sanitário no País. Por outro lado, o aumento do garimpo ilegal na Floresta Amazônica é outro desafio que temos aqui no Brasil. Este, com impactos diretos na sobrevivência da população indígena. Por fim, em relação à guerra, eu não esperava ver em vida uma guerra como essa. No meu mapa astral, isso nunca fez parte. Depois de termos avançados tanto na tecnologia, com coisas espetaculares, de repente no deparamos com uma matança sem sentido, primitiva, como a que estamos assistindo”, lamentou Confúcio.

Indagado  pelo embaixador da União Europeia no Brasil, Ignácio Ybáñez, sobre se achava que o arcabouço legal existente no País seria o suficiente para evitar o caos ambiental e preservar vidas e se o STF poderia atuar sempre nessa linha, o senador Jaques Wagner respondeu que “a visão que a sociedade tem sobre o meio ambiente não é uniforme. E isso se reflete no Congresso Nacional. Se dependesse de um grupo de parlamentares, projetos encaminhados pelo Executivo já teriam sido aprovados. Mas, há parlamentares como eu e o senador Confúcio Moura que estamos aqui para resistir”, concluiu o senador baiano.

Presentes ao encontro, além dos senadores Jackson Wagner e Confúcio Moura, o Comissário Europeu para o Ambiente, Oceanos e Pescas, Virginijus Sinkevicius; o embaixador da União Europeia no Brasil, Ignácio Ybáñez; o deputado federal, Rodrigo Augustinho (PSB/SP); Eglantine Cujo, assessora de gabinete do Comissário Europeu; Ana Beatriz Martins, ministra-chefe da Delegação Adjunta da união Europeia; Luis Plana Herrera, assistente da Direção-Geral de Ambiente; Domenica Bumma, chefe do Setor Político, Econômico e de Informação; Laurent Javaudin, conselheiro para Ação Climática, Energia, Meio Ambiente e Saúde.

Após encontro, o senador Confúcio Moura levou os integrantes da missão para conhecer o Plenário do Casa e as suas dependências, juntamente com o deputado Rodrigo Augustinho, membro da Frente Parlamentar Ambientalista da Câmara dos Deputados.

‘Pacote Verde’ do STF: ambientalistas comemoram primeira decisão da corte

Nesta quinta (28), Supremo derrubou três decretos sobre política ambiental do governo Bolsonaro.

A decisão de hoje foi em torno de três decretos diferentes sobre a política ambiental do governo Bolsonaro, um que excluía a participação de representantes da sociedade civil no conselho deliberativo do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), outro que afastava governadores de estados da Amazônia legal do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL) e mais um que extinguia o Comitê Organizador do Fundo Amazônia (COFA).

A corte derrubou todos os três decretos em questão, determinando a retomada da participação social nos conselhos e no comitê.

Para as organizações socioambientais, o resultado de hoje “reforça o papel do STF como guardião da democracia no país, para além de protetor do meio ambiente no país”.

 

A exclusão da sociedade civil do conselho do FNMA, um dos mais antigos fundos ambientais da América Latina, aconteceu em 2020. Depois disso, apenas representantes do governo passaram a compor o conselho da entidade.

Também em 2020, o presidente Jair Bolsonaro transferiu o CNAL do Ministério do Ambiente para a Vice-presidência e excluiu governadores da Amazônia Legal da composição do conselho que tem objetivo coordenar e integrar os esforços federais pela preservação, proteção e desenvolvimento da Amazônia brasileira.

Já o COFA, extinto em 2019, tinha como atribuição estabelecer diretrizes e critérios para aplicação dos recursos do Fundo Amazônia, mecanismo de captação de recursos para projetos de preservação e fiscalização do bioma, acompanhar as informações sobre a aplicação dos recursos e aprovar o Relatório de Atividades do Fundo Amazônia.

“Os ministros reafirmaram que todos temos direito a participar das decisões que afetam o meio ambiente, ou seja, nossa vida, mesmo que o Presidente não goste disso”, disse Raul Valle, diretor de Justiça Socioambiental do WWF-Brasil.

 

“O STF decidiu muito bem o primeiro caso da pauta verde. A conclusão do julgamento das outras ações também é urgente. Temos acompanhado um desmonte da política ambiental e, a cada dia que passa, vemos um agravamento do desmatamento na Amazônia e em outros biomas. O Supremo tem um papel importante na mitigação dos efeitos da crise climática”, acrescentou o advogado Rafael Giovanelli, especialista em Políticas Públicas do WWF-Brasil.

 

Para o Greenpeace Brasil, o primeiro resultado do julgamento do STF dá o claro recado ao governo que os “retrocessos promovidos não serão facilmente aceitos”.

Um igarapé no meio da Amazônia, na Floresta Nacional do Tapajós — Foto: Marcelo Brandt/G1

Um igarapé no meio da Amazônia, na Floresta Nacional do Tapajós — Foto: Marcelo Brandt/G1

“A participação da sociedade civil na democracia não se dá apenas através do voto, mas também através da participação e debate nos espaços como comitês e conselhos, direito que o atual governo tem retirado da sociedade”, acrescentou a porta-voz de políticas públicas da ONG, Thais Bannwart.

Nesta quinta, depois da decisão do STF, Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima também lembrou que a participação da sociedade civil nos órgãos colegiados da política ambiental tem relação direta com a garantia do direito de todos ao meio ambiente e que isso está determinado na Constituição.

“As tarefas do Poder Público nesse sentido necessitam ter controle social. Os atos normativos derrubados pelo STF colidiram com o importante histórico de participação social nesse campo de políticas públicas, retrocederam nessa perspectiva. O tribunal decidiu a favor da justiça, da democracia e das futuras gerações”, ressaltou.

G1

YANOMAMI Cármen Lúcia: ‘Parece que a civilização tem significado apenas para um grupo de homens’

Ministra do STF pediu providências sobre a denúncia de que garota yanomami foi estuprada e morta por garimpeiros

Na abertura da sessão do Supremo Tribunal Federal (STF), desta quinta-feira (28/4), a ministra Cármen Lúcia pediu a palavra para expressar a preocupação diante da  denúncia do estupro e morte de uma adolescente, de 12 anos, por garimpeiros na comunidade Aracaçá, na região Waiakás, na Terra Yanomami, em Roraima. O caso foi relatado por Júnior Hekurari Yanomami, liderança indígena, em um vídeo nas redes sociais na segunda-feira (25/4).

 

No vídeo em que traz a denúncia, Hekurari conta que recebeu informações de que garimpeiros invadiram a comunidade. “Os garimpeiros violentaram, estupraram ela e ocasionou o óbito. O corpo da adolescente está na comunidade. Também me informaram que uma criança e uma mulher foram levadas, a criança está desaparecida no rio”, relatou.

A ministra do STF pediu providências imediatas de autoridades, como o Ministério Público, para a apuração da denúncia. A magistrada ressaltou que a violência e a barbárie contra indígenas ocorrem há 500 anos no Brasil, com maior ênfase com mulheres, e às mulheres indígenas. “Parece que a civilização tem um significado apenas para um grupo de homens. O Poder Judiciário atua sobre provocação. O cidadão atua pela dor. Essa perversidade não pode permanecer como estatísticas, fatos da vida, notícias”, disse.

Cármen Lúcia também lembrou que o Supremo está votando, desde o início do mês, questões ambientais, e relacionadas, em especial, à Amazônia brasileira. “Os crimes que tratamos [refere-se à Pauta Verde] têm relação com os crimes contra indígenas. Precisa ficar esclarecido que o direito à vida está sendo rigorosamente descumprido e ignorado pelas instituições. Não se faça silêncio em relação às mortes das mulheres indígenas”, completou.

Em resposta à provocação de Cármen Lúcia, a vice-procuradora-geral da República, Lindôra Araújo, afirmou que o Ministério Público Federal está investigando a denúncia e que tem feito um trabalho na região para a proteção aos povos indígenas.

O ministro Luiz Fux também assegurou que se o caso chegar ao STF será tratado com prioridade e lembrou que a questão está sendo analisada pelos observatórios do Meio Ambiente e dos Direitos Humanos, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Fonte: Jota

FLÁVIA MAIA – Repórter em Brasília. Cobre Judiciário, em especial o Supremo Tribunal Federal (STF). Foi repórter do jornal Correio Braziliense e assessora de comunicação da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Faz graduação em Direito no IDP. Email: flavia.maia@jota.info

ENTREVISTA Txai Suruí: “Não estão queimando só a Amazônia, estão queimando as pessoas de lá também”

A Pública entrevistou jovem ativista Txai Suruí, que se destacou no ano passado ao discursar na 26º Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26), que aconteceu em Glasgow, na Escócia. Além de representar os povos brasileiros em eventos nacionais e internacionais, Txai hoje coordena o movimento da juventude em defesa dos direitos dos povos tradicionais em seu estado.

“Quando a gente fala em destruição e desmatamento da Amazônia, as pessoas acham que só estão cortando árvores, só estão botando fogo na Amazônia, e elas não se dão conta de que quando a gente vai fazer o nosso monitoramento para a defesa do nosso territórios, as nossas vidas estão em risco”, afirma.

 

Uma das principais liderança jovens de Rondônia, Txai falou sobre a mobilização da juventude indígena no Estado e a importância das eleições de 2022 para preservar a floresta

Por Laura Scofield

Txai é um apelido para Walelasoetxeige, nome que significa “mulher inteligente” em Tupi Mondé, a língua falada pelo povo Paiter Suruí, que vive em Rondônia. Filha de duas lideranças históricas de seu estado — o cacique Almir Suruí e a ativista Ivaneide Bandeira, fundadora da organização de defesa etnoambiental Kanindé —, a jovem ativista se destacou no ano passado ao discursar na 26º Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26), que aconteceu em Glasgow, na Escócia. Além de representar os povos brasileiros em eventos nacionais e internacionais, Txai hoje coordena o movimento da juventude em defesa dos direitos dos povos tradicionais em seu estado.

“Quando a gente fala em destruição e desmatamento da Amazônia, as pessoas acham que só estão cortando árvores, só estão botando fogo na Amazônia, e elas não se dão conta de que quando a gente vai fazer o nosso monitoramento para a defesa do nosso territórios, as nossas vidas estão em risco”, afirmou em entrevista à Agência Pública, dias depois do 18° Acampamento Terra Livre, que reuniu cerca de 8 mil de indígenas em Brasília. “A gente não só está fazendo essa proteção, a gente está fazendo essa proteção com nossas vidas.”

Mesmo já tendo ido três vezes a Brasília com o movimento indígena, esse foi o primeiro ATL que a jovem liderança acompanhou. Txai Suruí esteve presente na primeira semana da mobilização, junto à delegação de Rondônia e à Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Com agenda apertada, participou de plenárias no local e reuniões no Senado e no domingo (10) voou para São Paulo, para participar da primeira exibição brasileira do filme ‘O Território’, que conta a história de luta do povo rondoniense Uru-Eu-Wau-Wau na defesa de seus territórios contra posseiros, desmatadores e agricultores. Da capital paulista voou para a Holanda para levar o filme para outro festival, o holandês Movies That Matter [do inglês, Filmes que importam, em tradução livre], que promove obras que abordam os direitos humanos. Retornou na última semana a Porto Velho, onde mora, direto para o trabalho.

Txai Suruí foi a primeira de seu povo a cursar direito na Universidade Federal de Rondônia e, além de atuar na ONG Kanindé, que hoje atende 21 povos no estado, ajudou a criar seu próprio movimento para organizar os jovens indígenas rondonienses que trabalhavam cada qual em seu território. “Se está todo mundo fazendo a mesma coisa e junto a gente é muito mais forte, por que a gente ainda não está organizado?”, foi a pergunta que fundou a Juventude Indígena de Rondônia, que tem representantes em 12 povos.

“Querendo ou não a gente vive em um outro tempo, e hoje o nosso tempo é um tempo muito jovem. É um tempo muito tecnológico, muito rápido, que é uma coisa muito diferente do que os nossos mais velhos viveram, principalmente de alguns povos daqui”. A ativista também é conselheira da WWF Brasil e voluntária do Engajamundo, ONGs que abordam questões climáticas, ambientais e sociais.

Txai conta que a Juventude Indígena também está empenhada em aumentar a representatividade indígena no Congresso e em parceria com o Tribunal Regional Eleitoral e a Universidade Federal de Rondônia tem se mobilizado para regularizar os documentos de seus povos a tempo da eleição. Isso inclui um esforço para levar as urnas para as aldeias. “O mundo inteiro está falando que o mundo está acabando, é literalmente isso que está acontecendo e já tem pessoas morrendo por isso, inclusive os povos indígenas. Para mudar isso, a gente tem que mudar o nosso Congresso também.”

Leia a entrevista com Txai Suruí na íntegra:

Txai é uma jovem indígena com cabelos e olhos castanhos. Ela usa um cocar na cabeça, brinco de pena nas orelhas e tem pintura étnica no rosto e pescoço
Uma das principais lideranças jovens indígenas, Txai coordena o movimento da juventude em defesa dos direitos dos povos tradicionais em seu estado

Como começou a sua trajetória enquanto ativista e liderança jovem?

É muito difícil falar sobre quando começou essa trajetória, porque eu venho seguindo muito a trajetória dos meus pais, que também são dois ativistas de direitos humanos, meio ambiente e direito dos povos indígenas. Quando eles foram perseguidos, ameaçados, e a gente teve que ser escoltado pela Força Nacional, eu vivi isso e meus irmãos viveram isso.

Mas existem historinhas [sobre o meu ativismo] que minha mãe e meu pai sempre contam: a minha mãe conta que a gente estava em um protesto e eu sumi, eu tinha cinco anos, e quando ela me achou eu estava com o microfone na mão segurando a mão de um político, algum político do Partido Verde, pedindo pelos direitos das crianças. Ainda quando eu era pequenininha, tem uma história também com meu pai e com meu avô, que eu tava na aldeia na linha 12 —  as aldeias se organizam em linhas — e todos os representantes do meu povo estavam nessa aldeia para alguma comemoração lá, e aí o meu avô e meu pai me colocaram em cima de um tronquinho e disseram que eu era “labiway”, o que significa líder na língua do meu povo. Eu sempre fui muito ligada às organizações, quando eu estava na faculdade eu fazia parte do centro acadêmico, fui a primeira presidente indígena do centro acadêmico de Direito da UNIR [Universidade Federal de Rondônia], mas passei a me declarar ativista em 2018, quando eu começo a trabalhar na Canindé, que é uma organização que foi fundada pela minha mãe para trabalhar com povo Uru-Eu-Wau-Wau. Essa questão de ativismo é uma coisa que está na minha família desde sempre e a gente sempre esteve ligado nisso, mesmo pequenininhos.

Quando você decidiu fundar a Juventude Indígena de Rondônia?

Foi durante a pandemia, em 2020. A gente fundou o movimento na internet mesmo, pelo WhatsApp, pelas mídias sociais, e foi com o intuito de organizar os jovens líderes que a gente já via dentro dos territórios se articulando e trabalhando na luta. Só que eu via isso e pensava “‘tá todo mundo fazendo a mesma coisa e junto a gente é muito mais forte, por que a gente ainda não está organizado?”. E aí veio a ideia da gente se organizar e se articular como jovem para fortalecer o próprio movimento indígena aqui do Estado. Hoje eu digo com certeza que as organizações indígenas mais fortes do meu estado são o movimento da juventude e a associação de mulheres.

O grupo da juventude tem alguma pauta principal?

[O objetivo principal] era unir todas essas lideranças jovens, porque o que a juventude sofre é o que o território inteiro sofre. O que uma mulher indígena passa é o que o território dela está passando também, e o que os jovens indígenas passam também é o que o território está passando. A gente também traz outras pautas mais jovens, como educação. Falamos muito da importância da formação, não só formação profissional dentro da universidade, mas formação política dos jovens e a importância de formar os jovens politicamente para estarem engajados na defesa dos seus direitos. A gente traz as pautas que são comuns, de território, do que a gente está passando, de saúde, de educação, mas principalmente tentando trazer um olhar jovem sobre a coisa, um olhar diferenciado. Uma coisa é como o jovem está passando por aquilo, como ele vê aquilo, e como os outros, os mais velhos, veem o que eles estão passando. Querendo ou não a gente vive em um outro tempo, e hoje o nosso tempo é um tempo muito jovem. É um tempo muito tecnológico, muito rápido, que é uma coisa muito diferente do que os nossos mais velhos viveram ou viviam, principalmente de alguns povos daqui.

Por exemplo, o próprio [povo] Uru-Eu-Wau-Wau tem 30 anos de contato [com a sociedade nacional]. Trinta anos de contato é ontem. O próprio Suruí, que tem 50 anos de contato, ainda é muito pouco tempo. Têm mais velhos nossos que não falam português. Tudo isso traz a juventude mais para essa luta também. Meu pai fala para mim que o meu filho, o próximo depois de mim, a próxima geração, vai saber mais do que eu, como ele sabe mais do que o pai dele. A gente como jovem consegue se apoderar dessas novas pautas, que são as mídias sociais, que é a comunicação, que hoje são armas mesmo para a gente denunciar e para gente fazer a própria preservação da nossa cultura.

Jovens mulheres indígenas organizadas em fileira durante ato do ATL 2022. Elas vestem cocar e outros adereços tradicionais, além de pintura facial étnica
Juventude indígena tem se mobilizado pela defesa de seus territórios

Ao contrário de outras comunidades, onde os idosos são desvalorizados por não terem valor no sistema de produção, os anciões são muito importantes para os povos indígenas, já que carregam conhecimentos e sabedoria. Ao mesmo tempo, estão surgindo jovens lideranças indígenas, que estão ganhando destaque nacional e internacionalmente. De que forma uma jovem liderança indígena, como você, dialogou com os anciões e representantes tradicionais de sua comunidade para assumir esse protagonismo sem desrespeitar os mais velhos? Como funciona esse diálogo e esse processo?

Ainda existe [diálogo], é uma coisa que a gente está conquistando como juventude. Durante muito tempo a gente teve que ganhar a confiança dos mais velhos e das lideranças tradicionais, porque tinha essa coisa do “ai, mas você é muito jovem, você não viveu o que eu vivi, você não sabe como era antes”. Quando a gente é jovem muitas vezes ainda há um receio, e isso acontecia com a gente.

Como movimento da juventude, a gente era muito criticado, [como se] os jovens só quisessem se divertir. Foi um processo muito de tomada de confiança, de mostrar para eles o nosso trabalho, de mostrar o que a gente estava fazendo como movimento, o que a gente estava articulando como juventude, e que nunca foi uma questão de tomar o lugar de ninguém. Nunca foi algo assim, mas sempre de somar junto, somar às lideranças tradicionais, somar a quem já está aí na luta, até porque a gente sabe que essas pessoas vieram antes da gente e que, se não fossem elas, a gente não ia estar onde a gente está hoje. Não ia ter conquistado o que a gente conquistou.

Hoje eles confiam muito mais na gente, e os jovens que fazem parte da juventude também estão em outras organizações. Não é que a gente esteja criando lideranças ou engajando outras pessoas, os jovens já estavam fazendo esse trabalho [antes da criação do grupo]. A maioria está nas associações dos seus povos ou faz parte das associações indígenas do Estado, então a gente consegue dialogar [com as lideranças tradicionais] dessa forma, já estando nas organizações e sempre conversando como juventude. Sempre quando tem alguma coisa, a juventude se coloca à disposição para ajudar, para construir junto mesmo. Hoje é engraçado, hoje eles vêm atrás da gente e [perguntam:] “Será que a juventude pode ajudar nisso?” Tudo foi uma construção e estamos construindo ainda.

Imagem mostra dezenas de indígenas durante passeata do ATL 2022. É possível ver algumas faixas e cartazes que eles seguram, como a em destaque na frente do grupo com a frase "o futuro é indígena" escrito em vermelho
“Meu pai fala para mim que o meu filho, o próximo depois de mim, a próxima geração, vai saber mais do que eu, como ele sabe mais do que o pai dele”, conta Txai

Estamos em ano de eleição e lá no ATL existia uma tenda para que as pessoas tirassem o título de eleitor e um processo em curso para levar isso para as aldeias. Vocês estão com algum movimento do tipo?

A gente vem fazendo esse trabalho local também. Assim que a gente chegou do ATL, os jovens já ficaram aqui [em Rondônia], porque eles vão fazer um curso do TRE-RO [Tribunal Regional Eleitoral] para um projeto nosso em parceria com a universidade federal [UNIR] sobre a regularização dos documentos e do título [de eleitor] dentro dos territórios. Os jovens vão fazer o curso e vão se formar para fazer essa regularização dentro das terras deles.

A nossa ideia inicial era levar os indígenas para o TRE para fazer essa regularização dos títulos e [depois] levar as urnas para os territórios. Uma das coisas que a gente conseguiu analisar é que dentro do territórios, a gente tinha muito voto em branco, porque muitos dos mais velhos não sabem falar português e o voto é secreto, então você tem que ir sozinho, mas eles não sabem como fazer e acabam votando errado. E leva quase dois dias para sair de alguns territórios, tem que pegar estrada e ainda tem que pegar barco, aí você imagina [como é difícil] deslocar essas pessoas para votar. Muitas vezes a gente sequer tem condições de fazer isso, porque hoje a gasolina tá quase R$ 10 aqui. Imagina você tirar todo mundo da aldeia para ir votar lá, então a nossa ideia era levar também as urnas, não sei se a gente vai conseguir esse ano, mas pelo menos a gente vai começar esse trabalho dos próprios jovens indígenas voltarem para as aldeias e fazerem essa regularização do título e dos documentos do restante da comunidade.

A gente tem outros projetos voltados para as eleições também, a gente está criando uma carta de compromisso não só para os candidatos indígenas, mas também para outros pré-candidatos que sejam a favor da pauta ambiental e climática para que eles realmente se comprometam a não estarem colocando projetos de lei como esses que a gente está vendo aí, da mineração [PL 191] e o PL 490.

Indígena segura a bandeira do Brasil nas mãos; ela está manchada de sangue e com algumas frases escritas como "não ao pacote do veneno", "Fora Bolsonaro" e "Não ao Marco Temporal"
Movimento jovem tem se articulado contra projetos de lei que ameaçam os direitos indígenas

Passando para a sua atuação na área da emergência climática. Quando você se aproximou da temática?

Acho que a questão climática para mim surgiu na COP [25]. Ano passado eu falei na COP 26, mas eu já tinha ido na passada, que era do Chile, mas na verdade aconteceu em Madri. A gente sempre falou de território, do que está acontecendo na Amazônia, do que está acontecendo aqui em Rondônia e das invasões, além da própria sabedoria dos povos indígenas em relação à destruição da nossa floresta e a nossa própria cosmovisão de mundo. A gente fala disso há anos, mas fazer essa conexão entre a luta dos povos indígenas e mudanças climáticas só aconteceu quando eu fui para COP.

A primeira vez que eu fui para a COP foi a convite da APIB [Associação dos Povos Indígenas do Brasil] para representar a juventude e lá eu tive a oportunidade de falar em uma mesa que foi organizada pelo próprio Engajamundo , que eu não fazia parte ainda, e ali eu me dei conta de que aquilo que eu estava levando, que na verdade eram coisas que acontecem localmente, sobre a minha realidade e a realidade dos povos indígenas do Brasil, na verdade estava ligado ao que estava acontecendo lá fora. Está tudo conectado, e a partir daquele momento eu mudo meu discurso para dizer: “olha, o trabalho que a gente está fazendo, a luta que a gente vem travando dentro do território também deveria ser uma luta de vocês. Vocês aqui nos outros países, nos outros lugares, deveriam estar olhando para os povos indígenas, vocês deveriam estar olhando para as pessoas que vivem na floresta, porque não adianta nada a gente salvar as árvores se a gente não salva quem está salvando as árvores”. A minha pauta com mudanças climáticas começa aí, vira a chavinha mesmo, e eu começo a me aprofundar nos assuntos e a estudar um pouco mais.

No seu discurso na última COP você falou que os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática. O que você queria dizer com isso?

Eu sou uma mulher amazônica, eu sou de Rondônia, da Amazônia brasileira, e hoje a gente sabe a importância da Amazônia na questão climática, quando a gente vai falar de mudança climática. Tanto que a gente chama a Amazônia do ar condicionado do mundo, que vem fazendo esse equilíbrio climático do planeta. Hoje com o último relatório do IPCC, a gente sabe inclusive que a Amazônia está perdendo esse poder de reter o carbono mesmo. Se a gente pega qualquer mapa hoje, a gente vê que a floresta em pé é onde há a presença dos povos indígenas, onde há territórios indígenas, sejam eles demarcados ou não. A floresta é importante para o mundo e para [barrar] as mudanças climáticas, e hoje [mesmo] com todos esses ataques, os territórios indígenas protegem mais do que as unidades de conservação, que é onde não tem ninguém. Por isso que eu falo que a gente está na linha de frente.

 

Outra coisa que eu percebi é que quando a gente fala em destruição e desmatamento da Amazônia, as pessoas acham que só estão cortando árvores, só estão botando fogo na Amazônia e elas não se dão conta, por exemplo, de que quando a gente vai fazer o nosso monitoramento para as pessoas do nosso territórios, as nossas vidas estão em risco. Antes da queimada e do desmatamento vem a invasão e muitas vezes essas invasões e ameaças acontecem perto, tem invasão que é 3 km da aldeia. Você está em casa e escuta motosserra do lado da sua casa. Não é que estão queimando a Amazônia só, estão queimando a Amazônia e estão queimando as pessoas que estão lá também. E quem está fazendo esse trabalho de proteger a floresta? De não permitir que ela seja ainda mais destruída, ainda mais desmatada? São os povos originários, são as pessoas que vivem na floresta. Por isso que a gente está nessa linha de frente, porque a gente não só está fazendo essa proteção, mas a gente está fazendo essa proteção com nossas vidas.

Como os conhecimentos indígenas podem auxiliar no combate à crise climática? Pode dar exemplos a partir do seu povo?

Essas ideias já existem e inclusive já estão sendo executadas há muito tempo. O meu povo, o povo Paiter Suruí, trabalha com reflorestamento, porque no ponto que a gente se encontra hoje, já não basta mais só a gente proteger a floresta. A gente está num ponto que a gente tem que devolver para ela aquilo que a gente tirou dela. A gente trabalha com monitoramento, o meu povo faz o biomonitoramento, que além de monitorar o nosso território, a gente faz análise da nossa fauna, que vai inclusive nos mostrar como que a gente está sendo afetado pela crise climática, porque a gente vê os animais desaparecendo, a gente vê o desequilíbrio ecológico dentro do nosso território. Ou seja, a gente tá plantando e a gente está protegendo a floresta.

Agora a gente está trabalhando com etnoturismo e com café de forma sustentável para mostrar como que a gente consegue criar trabalhos sustentáveis, onde você não precisa destruir a floresta, e ainda valorizar a beleza do que tem aqui, valorizar a nossa floresta, a nossa cultura, porque a gente ainda precisa muito aprender a valorizar os povos indígenas aqui no Brasil. E a gente ainda consegue lucrar com isso, gerar renda a partir disso, e não só para as comunidades indígenas, mas também para quem está de fora. A gente faz um café agroecológico, sem veneno, pensando no fortalecimento da comunidade e das nossas associações. O projeto do reflorestamento existe desde 2005, e depois começamos a trabalhar com mercado de carbono, coisa que as pessoas vão falar só agora. A gente está falando isso e prevendo isso há muito tempo. E isso é dentro da minha terra, imagina dentro dos outros territórios que existem, só em Rondônia existem 52 povos indígenas, então imagina as várias outras soluções que existem e que eu não conheço.

Por vezes os negacionistas climáticos colocam como se a intenção do movimento ambientalista e climático fosse ‘acabar com o desenvolvimento do Brasil, em uma oposição entre ‘produção’ e ‘sustentabilidade’. Isso faz sentido?

Foi construída uma narrativa onde os povos indígenas são inimigos do desenvolvimento, são inimigos do chamado progresso. Mas que progresso é esse onde no Brasil a desigualdade está crescendo? Cada vez mais pessoas passando fome, cada vez mais direitos humanos sendo feridos, sendo desrespeitados. Existem 1001 soluções dentro dos territórios indígenas e que mostram que é uma falácia que os povos indígenas só querem atrasar o Brasil. Na verdade, o que eu escuto desde sempre do pai e de outras lideranças é que o que os povos indígenas querem é qualidade de vida para todo mundo, não só dentro dos nossos territórios, mas para todos. E aí gente mostra como é possível sim através dessa soluções, a gente pensar por exemplo no tripé da sustentabilidade, que é pensar no ambiental, sem destruir o meio ambiente, no econômico, conseguindo sim gerar recursos, conseguindo gerar renda para aquelas comunidades e populações, e no social, pensando que não adianta nada a gente proteger o meio ambiente e lucrar esquecendo das pessoas. Fortalecer esses três pilares é possível e a gente já está fazendo isso dentro das nossas terras, é isso que a gente está tentando mostrar. A gente faz um trabalho muito de denúncia do que está acontecendo, dos ataques, das invasões, mas a gente também faz para ser propositivo, para trazer soluções, para mostrar inclusive que essas soluções não só já existem como estão sendo executadas e colocadas em prática dentro do território. O que elas precisam é só de mais apoio para que elas fiquem cada vez maiores e que atinjam cada vez mais as pessoas.

Na foto é possível ver homens e mulheres indígenas com seus corpos sujos de lama, a maioria usa cocar na cabeça. Um deles, em destaque na foto, tem a frase "garimpo mata" escrito de vermelho nas costas. Ao fundo do grupo está um balão azul imitando o formato do planeta terra
“Foi construída uma narrativa onde os povos indígenas são inimigos do desenvolvimento, são inimigos do chamado progresso”, diz

Na sua avaliação, é possível separar a luta pela defesa do meio ambiente da luta por frear a emergência climática?

Não. Eu acho que falar de clima é falar de meio ambiente, assim como falar de justiça climática é falar de pessoas, falar de uma pauta antirracista, anticapitalista, por igualdade de gênero, contra as desigualdades sociais. São coisas que a gente pode abordar separadamente, mas elas nunca se separam.

Como a gente pode tornar esse debate mais popular? Quais são as estratégias que, na sua opinião, podem ser usadas para isso?

Eu acho que essas estratégias inclusive já estão sendo colocadas em prática através do trabalho da juventude. A juventude vem facilitando, vem tornando esse debate mais acessível para que todos entendam. Não adianta nada a gente, por exemplo, ficar falando de acordo de Paris, ficar falando de NDC [Contribuições Nacionalmente Determinadas, as metas de cada país], porque as pessoas não vão entender, principalmente aquelas pessoas que precisam entender, então a gente precisa mostrar para elas trazendo para suas realidades também, mostrando como aquilo vai afetá-las. Não ficar usando esses termos técnicos, muito difíceis. Antes, quando a gente falava de crise climática, de mudança climática, todo mundo falava sobre a camada de Ozônio. Todo mundo pensava nisso. Quando na verdade é isso, mas é muito mais do que isso.

Falar de mudança climática é falar de saneamento básico, que qualquer pessoa está sujeita a essa questão, seja na cidade ou na aldeia; é falar como essa chuva e esses alagamentos bem afetando já o Brasil, como aconteceu em Minas, na Bahia, em Petrópolis, como está acontecendo aqui na aldeia, que quando chove alaga. É trazer isso para as realidades das pessoas também e também mostrar que é possível ter soluções para isso e que a gente pode construir elas juntas.

No início de 2021, você se uniu a jovens do Engajamundo e da Fridays For Future Brasil para processar o governo Bolsonaro por pedalada climática. O processo foi declinado pela primeira juíza, mas o governo voltou atrás e retornou ao entendimento anterior. Pode explicar do que se trata nas suas palavras?

A gente tem as metas que são previstas no Acordo de Paris, que cada país deve seguir para que a gente consiga alcançar 1.5 °C [máximos de aquecimento], que é o que a gente queria alcançar, e aí o Brasil muda o modo de contar a meta, o que faria com que a gente emitisse mais gases do efeito estufa do que a meta anterior. A gente ia estar emitindo mais do que grandes países, como a Espanha. E a gente nunca pode mudar a meta do Acordo de Paris para menos, ela sempre é mais vantajosa, então quando o Brasil tenta dar esse ‘jeitinho brasileiro’ de mudar a conta, ele começa a querer emitir mais também. Por isso que a gente chama de pedalada climática, porque ele tentou dar essa burlada nessa conta para poder ultrapassar a meta e mudar para uma menos vantajosa.

Eu faço parte desse caso porque sou voluntária do Engajamundo, que junto com o Fridays [for Future] e junto com o Observatório do Clima, propuseram essa ação. É muito importante nisso a gente estar incluindo pessoas indígenas, porque durante muito tempo também a própria discussão sobre meio ambiente era muito branca, eram muitos homens brancos falando de clima, falando de Meio Ambiente, e aí a gente também está numa proposta de mudar isso. E quem melhor que jovens diversos para estar propondo essas ações? Eu fui lá falar que sou eu, mulher indígena jovem que vou ser afetada principalmente por essa meta. Se a gente pega o IPCC, a gente vê que as regiões mais afetadas do Brasil estão aqui na Amazônia, que vai ter os maiores aumentos de temperatura.

Txai é uma jovem indígena com cabelos castanhos. Ela usa um cocar na cabeça, camiseta branca, colar vermelho e brinco de pena. Na foto Txai esta ajeitando o cocar e olhando para o chão
Para Txai, durante muito tempo a discussão sobre meio ambiente e clima tinha “muitos homens brancos falando”

Quais são os contras quando a sua imagem se torna conhecida e atrelada a essa luta contra a crise climática? Você sofreu alguns ataques ano passado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Como isso te impacta?

Impacta mais a nível local mesmo. Quando a gente estava na COP o Bolsonaro me atacou e eu recebi muitas mensagens machistas, racistas, misóginas, de ódio, e aí eles ofereceram proteção para gente, mas eu falei que ali eu não me sentia insegura, o problema é quando eu voltar para o meu território mesmo. Lá sim as coisas são muito mais perigosas. Essa visibilidade traz cada vez mais isso. Eles sabem quem está falando, eles veem o seu rostinho, então o perigo aumenta mais.

Como foi para você estar no ATL e qual é a importância desse tipo de mobilização?

Esse ano a gente conseguiu levar oito mil pessoas para o ATL. É muita gente e mostra como a gente está engajado em derrubar esses PLs da destruição e esses projetos de lei que querem acabar com as nossas vidas. Para mim foi muito legal, porque foi a primeira vez que Rondônia conseguiu levar dois ônibus, e um deles foi o ônibus da juventude, e o outro foi o ônibus levado pelas mulheres. Então até as lideranças tradicionais fomos nós que levamos. Por exemplo, a gente levou a Mandu, que é Uru-Eu-Wau-Wau, ela é a mulher mais velha do povo, ela estava na época do contato. Foi a primeira vez que ela foi para lá. Eu perguntei para ela o que ela tinha achado e ela disse que nunca tinha visto tanto Kawahiva, que na língua deles é indígena.

 

Foi a primeira vez que ela viu tantos povos indígenas com tantas culturas diversas juntos. A gente estava levando a pessoa mais sábia, mais vivida daquele povo. Os mais jovens ficaram muito animados, até para eles entenderem como funciona o movimento indígena. A importância é fazer pressão, a gente aproveitou que estava lá para fazer outras agendas também no Senado, na Câmara, e fazer outras conversas. É importante em todo um contexto que a gente está vivendo nesse Brasil, de ataque aos povos indígenas, da gente mostrar que a gente não vai aceitar que os nossos direitos sejam retirados desse jeito, a gente não vai aceitar a mineração desses nossos territórios, e a gente está aqui com a maior quantidade de indígenas que já trazemos aqui para Brasília para dizer que a gente não quer isso.

Neste ano eleitoral, de que forma a escolha de quem votar influencia no debate da crise climática?

Eu acho que o maior exemplo de como isso afeta tanto a questão climática quanto as nossas vidas é o que a gente está vivendo agora. Se a gente tem o PL 191, o PL 490 e outros projetos de lei e destruição, que querem inclusive permitir agrotóxicos na nossa mesa, é porque tem alguém lutando por isso lá no Congresso. Se não tivesse ninguém para votar, para colocar essas pautas, a gente não estaria passando pelo maior processo de destruição que o meio ambiente vem sofrendo no Brasil, e de maior ataque aos povos indígenas também.  A gente não estaria passando por isso. É por isso a importância da gente ter representatividade, mas não representatividade vazia – igual o [vice-presidente Hamilton] Mourão, que fala que é indígena – é ter representatividade de verdade, de mulheres indígenas, de quem está no território, de quem está lutando, porque a gente nunca vai conseguir realmente ter soluções diferentes, ter uma política ambiental diferente, enquanto a gente tiver as mesmas pessoas decidindo por isso. E pessoas que são ligadas principalmente ao agronegócio, às grandes empresas, e não à necessidade real do povo brasileiro. A pauta ambiental deveria ser uma pauta suprapartidária, não deveria ser uma agenda de um governo, de um candidato específico. O mundo inteiro está falando que o mundo está acabando, é literalmente isso que está acontecendo e já tem pessoas morrendo por isso, inclusive os povos indígenas. Para gente mudar isso a gente tem que mudar o nosso Congresso também.

Fonte: Agência Pública

Nove produções para conhecer a luta dos povos originários da Amazônia

Principais obstáculos que os indígenas da Amazônia enfrentam para manter sua cultura são expostos em produções que buscam dar visibilidade aos povos originários.

A cultura dos povos indígenas é de suma importância para o Brasil. Porém, muitos temas relacionados aos povos indígenas passam longe do grande público, como a luta por direitos e sobrevivência.

O Portal Amazônia reuniu nove documentários que mostram os principais obstáculos que os indígenas da Amazônia enfrentam para manter sua cultura. Confira:

When two worlds collide (2016)

“Quando dois mundos colidem” conta a história de um líder indígena na Amazônia que resiste ao meio ambiente arruinado por grandes empresas. Quando ele é forçado a se exilar e encarar 20 anos na cadeia, seus questionamentos revelam visões conflitantes que contornam o destino da Amazônia e o futuro clima do nosso mundo.

Confira o trailer:

Nheengatu (2021)

José Barahona segue navegando pelo alto Rio Negro, na Amazônia profunda, em busca de uma língua imposta as comunidades indígenas pelos colonizadores. Através dessa mistura de português com dialetos locais, o Nheengatu nasceu.

Confira o trailer:

Segredos da Tribo (2013)

Este documentário relata os primeiros estudos feitos por antropólogos com os indígenas ianomâmis na parte venezuelana da Floresta Amazônica. Em 1960, estes pesquisadores teriam sido responsáveis por uma série de abusos sexuais, assassinatos e violações médicas com a população indígena.

Confira o trailer:

Piripkura (2018)

Os únicos sobreviventes do povo indígena Piripkura estão vivendo em uma área protegida no Mato Grosso, cercados por fazendas. Para que a área continue sob proteção, a cada dois anos uma expedição da FUNAI vai ao local assegurar que os dois ainda estão vivos.

Confira o trailer:

Ex-pajé (2018)

Em Ex-Pajé, um poderoso pajé passa a questionar sua fé depois do primeiro contato com brancos que julgam sua religião como demoníaca. No entanto, a missão evangelizadora comandada por pastor intolerante é posta em cheque quando a morte passa a rondar a aldeia e a sensibilidade do índio em relação aos espíritos da floresta mostra-se indispensável.

Confira o trailer:

Taego Ãwa (2017)

Na faculdade, uma dupla de cineastas encontrou cinco fitas VHS contendo registros culturais da tribo Ãwa. Reunindo outros materiais, eles partem em busca do grupo, apresentando as imagens pela primeira vez e descobrindo a trajetória de enfrentamento com o povo branco desde 1973. Hoje, os Ãwa lutam pela demarcação e restituição de suas terras.

Confira o trailer:

As hiper mulheres (2013)

No documentário ‘As Hiper Mulheres’, com receio de que sua esposa já idosa venha a falecer, um senhor de idade pede que seu sobrinho realize o Jamurikumalu, o maior ritual feminino do Alto Xingu (MT), para que ela possa cantar mais uma última vez. As mulheres do grupo começam os ensaios enquanto a única cantora que de fato sabe todas as músicas se encontra gravemente doente.

Confira o trailer:

Chuva é cantoria da aldeia dos mortos (2019)

Ihjãc é um jovem do povo Krahô, aldeia indígena localizada em Pedra Branca, no interior do Brasil. Depois de ser surpreendido pela visita do espírito de seu falecido pai, ele se sente na obrigação de organizar uma festa de fim de luto, comemoração tradicional da comunidade.

Confira o trailer:

A última floresta (2021)

O xamã Davi Kopenawa Yanomani tenta manter vivos os espíritos da floresta e as tradições, enquanto a chegada de garimpeiros traz morte e doenças para a comunidade, que fica localizada em um território Yanomani, isolado na Amazônia. Os jovens ficam encantados com os bens trazidos pelos brancos; e Ehuana, que vê seu marido desaparecer, tenta entender o que aconteceu em seus sonhos.

Confira o trailer:

Fonte: Portal Amazônia

Após 22 anos, povo Gavião retoma atividade extrativista da borracha natural em Rondônia

Primeira reunião de planejamento da safra aconteceu em fevereiro de 2022. Extração do látex acontecerá na Terra Indígena Igarapé Lourdes, em Ji-Paraná.

Depois de 22 anos, o povo Gavião, da Terra Indígena (TI) Igarapé Lourdes, em Ji-Paraná (RO), retomou a atividade extrativista da borracha natural. Para José Palahv Gavião, coordenador da cooperativa Coopervekala, o resgate do trabalho deixa em evidência a prática intrínseca ao povo.

“Até a década de 80, o povo Gavião parou de trabalhar com a seringa e hoje, a gente vai começar a trabalhar. O povo gavião retornou com a extração de látex, através da cooperativa, com a parceria com o Pacto das Águas e ainda com o valor agregado. O povo fica feliz com o retorno ao trabalho, porque a gente tem essa prática“, disse José Palahv.

 

A primeira reunião de planejamento da safra aconteceu em fevereiro de 2022. Segundo Stephanie Carolina da Silva, assessora técnica do Pacto das Águas, o cadastro do produtor e a entrega de insumos para apoio à cadeia já foi realizado.

“A gente chega com eles com o pagamento por serviços socioambientais, ou seja, é [a união] do trabalho que eles vem fazendo de manter a floresta em pé e preservar a natureza, e a remuneração disso”, explicou.

Reunião entre povo Gavião e Pacto das Águas — Foto: Divulgação

Reunião entre povo Gavião e Pacto das Águas — Foto: Divulgação

Comercialização

 

De acordo com a Pacto das Águas, a extração do látex na TI Igarapé Lourdes já tem destino. Em reunião com o povo indígena, foi oficializado a comercialização do produto para duas empresas de tênis.

José Palahv Gavião ressalta que, o aumento no valor de comercialização foi um dos fatores decisivos para a retomada do trabalho.

“Na época, a gente trabalhava com 30 centavos cada quilo. Hoje, que é R$ 12, a gente percebe que é um avanço”, diz.

Além do látex extraído na Terra Indígena, as empresas de tênis já utilizam borracha nativa de três Reservas Extrativistas de Rondônia, a Rio Cautário e a do Rio Ouro Preto.

Fonte: G1 Rondônia

O futuro do capitalismo será guiado pelo impacto social

Investidor e filantropo Sir Ronald Cohen defende a valorização do bem-estar comum além do lucro

O fenômeno da concentração de riqueza segue em pleno crescimento no mundo todo. Dados de 2021 revelam que os bilionários detêm 11% da renda mundial. Em contrapartida, os 50% mais pobres ficam com apenas 2% deste montante. Convencidos de que não há futuro no capitalismo selvagem, grandes investidores e empresários já voltaram a atenção para as injustiças causadas pelo desequilíbrio financeiro entre classes.

Em Impacto, livro best-seller do Wall Street Journal, lançado no Brasil pela Matrix Editora, o filantropo e investidor Sir Ronald Cohen reforça seu papel como um dos líderes do movimento que defende uma revolução no sistema econômico atual.

Por suas ideias visionárias, Cohen é conhecido como o “Papa” dos negócios de impacto. Estas iniciativas alinham os objetivos do setor privado e dos governos em busca de soluções para questões sociais e ambientais. A intenção é mobilizar capital e potencial inovador em prol de transformações profundas e duradouras em toda a comunidade. Com isso, seria possível reduzir as tensões e a sensação, por parte dos desfavorecidos, de que eles estão presos para sempre na situação em que se encontram.

Precisamos de novas soluções voltadas tanto para os
nossos desafios sociais quanto para os ambientais – dois
problemas que no momento estão em rota de convergência,
uma vez que vemos as mudanças climáticas provocarem
ondas de migração forçada. Mas de onde virão as soluções
ousadas de que necessitamos? Se nem os governos e
o setor privado foram capazes de promover melhorias
urgentes numa escala significativa, talvez a
resposta esteja numa modificação do
nosso sistema econômico.
(Impacto, pág. 26)

Sir Ronald Cohen ressalta que o capital privado não só pode como deve fomentar negócios que promovam mudanças sociais e ambientais. Por isso, o livro não trata de conceitos utópicos, mas sim de iniciativas que já apresentam resultados reais. Como diz o autor, é possível “fazer o bem e se dar bem”.

Os problemas sociais, como a evasão escolar, reincidência criminal e falta de saneamento têm um custo elevado para a sociedade e os governos. Programas estruturados para minimizar ou erradicar estas situações geram ganhos para toda a comunidade.

Este é o caso do empresário Steve Case que investiu US$ 30 milhões em um programa de refeições escolares que alimenta crianças carentes nos Estados Unidos e ao mesmo tempo alcança rendimentos na casa de US$ 150 milhões.

A obra serve como guia para aqueles que desejam se aventurar no universo dos negócios de impacto e oferece novas percepções sobre investimentos, retornos e lucratividade. Impacto é uma leitura indicada para pessoas de negócios, lideranças, governantes e filantropos que desejam fazer a diferença e querem despontar como pioneiros da inovação.

Ficha técnica

Livro: Impacto – Um novo modelo de capitalismo para gerar mudanças verdadeiras no mundo
Autor:
 Sir Ronald Cohen
Editora:
 Matrix Editora
ISBN:
 978-65-5616-209-6
Páginas: 
224
Formato: 16 x 23
Preço:
 R$54,00 (versão impressa) e R$ 37,00 (e-book)
Onde encontrar: 
Matrix Editora

Sobre o autor

Sir Ronald Cohen é um filantropo, investidor de capital de risco e private equity, inovador social e uma das principais figuras do movimento mundial “Revolução do impacto”. Nascido no Egito e radicado na Inglaterra, Cohen preside o Grupo Conselheiro Global de Investimento em Impacto (GSG), é presidente e cofundador do The Portland Trust, cofundador do Social Finance UK, Social Finance US e Social Finance Israel, cofundador dos braços britânico, americano e israelense do Bridges Fund Management e cofundador do Big Society Capital. Foi nomeado como cavaleiro da Coroa Britânica por seu trabalho com capital de risco e sua atuação visionária na promoção dos investimentos de impacto social.

Sobre a editora

Apostar em novos talentos, formatos e leitores. Essa é a marca da Matrix Editora, desde a sua fundação em 1999. A Matrix é hoje uma das mais respeitadas editoras do país com mais de 800 títulos publicados e dez novos lançamentos todos os meses. A editora se especializou em livros de não-ficção, como biografias e livros-reportagem, além de obras de negócios, motivacionais e livros infantis. Os títulos editados pela Matrix são distribuídos para livrarias de todo o Brasil e também são comercializados no site www.matrixeditora.com.br.

 

94% das terras indígenas da Amazônia sofreram pressões externas entre 2016 e 2020

Desmatamento, degradação florestal, garimpos, focos de calor ou a existência e construção de estradas são alguns dos fatores que pressionaram essas regiões

A análise, que considerou fatores como degradação florestal, garimpos, focos de calor e existência de estradas, mostra que 26 territórios indígenas (7% da Amazônia) apresentaram taxas de desmatamento maiores que a média regional

Dos 115 milhões de hectares que as terras indígenas ocupam na Amazônia brasileira, 94% foi submetido, entre 2016 e 2020, a pressões causadas, na maioria das vezes, por agentes externos que vêm colocando em risco os direitos e a coesão social desses territórios.

Desmatamento, degradação florestal, garimpos, focos de calor ou a existência e construção de estradas são alguns dos fatores que pressionaram essas regiões, como mostra estudo inédito produzido pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), desenvolvido a partir da plataforma Timberflow, que reúne dados e oferece maior transparência sobre a cadeia produtiva da madeira no Brasil.

Segundo o estudo “Vetores de pressão sobre os territórios indígenas da Amazônia brasileira: situação atual e perspectivas para a governança socioambiental destes territórios”, as áreas mais pressionadas estão localizadas ao longo da nova fronteira madeireira ativa, região historicamente atingida pela degradação ambiental.

A pesquisa destacou 26 territórios indígenas, que representam 7% das TI’s da Amazônia e apresentaram alto nível de pressão, com taxas de desmatamento que superaram a taxa média da região. Estima-se que a perda de áreas para o desmatamento, exploração ilegal de madeira e garimpos desses territórios foi de, aproximadamente, 0,9% de sua área total ao ano, quase o triplo do verificado em outras regiões da floresta Amazônica.

As unidades de maior pressão de desmatamento foram as terras indígenas de Ituta/Itatá (Pará), Bacurizinho (MA), Paracuhuba (AM) e Turé-Mariquita (PA), com taxas de perda anual superiores a 1% ao ano. De acordo com o estudo, as perdas médias de florestas para o desmatamento e degradação florestal na Amazônia estão estimadas em 0,36% ao ano.

“É muito preocupante que quase 30 territórios indígenas tenham apresentado níveis de pressão tão altos, porque esses locais atuam como escudos para proteger os povos indígenas, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos”, afirma a pesquisadora Mayte Benicio Rizek, que liderou o estudo. “Lidar com esse tema é urgente, porque os impactos e perdas são evidentes e se nada for feito a pressão tende a aumentar significativamente também em outros territórios.”

Outro vetor de pressão identificado nessa região foi a mineração. O estudo mostra que, desde 2019, processos de pedidos para exploração minerária em territórios indígenas na Amazônia aumentaram 91%.

O estudo mapeou pressões nas áreas analisadas e apresentou informações relevantes para o cenário atual, dada a importância do tema de degradação em terras indígenas e perda de direitos dessas populações. A partir dos dados levantados, é possível traçar panoramas futuros, considerados preocupantes pelos pesquisadores caso não sejam tomadas medidas de proteção a esses territórios.

Ao fim do estudo, foram apresentadas recomendações para a diminuição da pressão sobre os territórios indígenas da Amazônia, focando em melhorias na governança socioambiental desses territórios para protegê-los de ameaças externas. Dentre as medidas recomendadas estão a inclusão de uma estratégia efetiva de combate ao desmatamento e o ordenamento prioritário das áreas legalmente protegidas.

“O estudo é um alerta diante do aumento significativo de invasões a esses territórios, da diminuição de aplicação de multas ambientais e da paralisação dos procedimentos de demarcação”, afirma o coordenador de projetos do Imaflora, Marco Lentini, um dos coautores do estudo. “Para que grande parte das mudanças ocorra, é preciso aumentar o nível de governança, de controle e de fiscalização, especialmente na nova fronteira de desmatamento. Também é crucial avançar em uma agenda de curto prazo que apoie tais populações em sua organização social, fortalecimento das associações representativas e em projetos de valorização de sua cultura, produção e diversidade.”

Plataforma Timberflow

A plataforma Timberflow foi desenvolvida dentro do projeto “Legalidade e transparência florestal na Amazônia brasileira” do Imaflora, com apoio da Good Energies Foundation, com o objetivo de facilitar a visualização de todas as etapas da produção de madeira da Amazônia, com base nos dados dos sistemas oficiais de controle de produtos florestais.

O Timberflow conta com um conjunto de publicações que trazem informação qualificada a respeito da evolução do mercado de madeira e de outros produtos florestais da Amazônia nas últimas décadas, podendo contribuir com o fortalecimento de políticas públicas, iniciativa privada e novos estudos acadêmicos.

Sobre o Imaflora

O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola — Imaflora — é uma associação civil sem fins lucrativos, criada em 1995, que nasceu sob a premissa de que a melhor forma de conservar as florestas tropicais é dar a elas uma destinação econômica, associada a boas práticas de manejo e a uma gestão responsável dos recursos naturais

Fonte: Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola – Imaflora

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