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‘Governo não cuidou, e agora temos que manter legado’, diz neto de último indígena Juma morto por covid-19

Quando Aruká voltou para sua terra, em 2008, entoou um choro ritual. Era a saudade dos seus mortos — um povo inteiro massacrado sucessivas vezes por invasores do território no sudeste do Amazonas.

O lamento, agora, é pela morte de Aruká. O guerreiro indígena tinha entre entre 86 e 90 anos e era o último homem Juma. Ele morreu nesta quarta-feira (17) vítima da covid-19, doença dos não indígenas que foi levada a sua terra. Deixou três filhas, netos e bisnetos.

Aruká, último guerreiro do povo Juma, morreu na quarta-feira (17) em decorrência da covid-19

As três filhas de Aruká casaram-se com homens do povo Uru-eu-wau-wau, uma vez que a população do povo Juma era pequena demais, resultado dos massacres e doenças.

Isso significa que os descendentes de Aruká carregam no sangue as duas etnias, mas, segundo o sistema patrilinear, são Uru-eu-wau-wau, e não Juma. É por isso que Aruká era considerado o último guerreiro de seu povo.

Da BBC Brasil

A devastadora e irreparável morte de Aruká Juma

É desoladora a morte por complicações de Covid-19 do último homem do povo Juma, o guerreiro Amoim Aruká. O povo Juma sofreu inúmeros massacres ao longo de sua história. De 15 mil pessoas no início do século XX, foi reduzido a cinco pessoas em 2002. Um genocídio comprovado, mas nunca punido, que levou seu povo quase ao completo extermínio. O último massacre ocorreu em 1964 no rio Assuã, na bacia do rio Purus, perpetrado por comerciantes de Tapauá interessados pela sorva e castanha existente no território Juma. No massacre foram assassinadas mais de 60 pessoas, apenas sete sobreviveram. Integrantes do grupo de extermínio contratados pelos comerciantes relataram atirar nos Juma como se atirassem em macacos. Os corpos indígenas foram vistos por ribeirinhos da região, após o massacre, servindo de comida para porcos do mato, inúmeras cabeças decapitadas espalhadas pelo chão da floresta. O mandante do crime, ciente do ocorrido, se vangloriou por ter sido o responsável de livrar “Tapauá dessas bestas ferozes”. Essa história jamais deve ser esquecida.

Aruká, um dos sobreviventes, continuou sua luta de resistência, vendo seu povo beirar o desaparecimento. Lutou pela demarcação do território Juma, que foi homologado apenas em 2004, a Terra Indígena (TI) Juma. Os sobreviventes Juma, apesar do risco de desaparecimento, viram seu povo crescer novamente na década de 2000, por meio de casamentos com indígenas Uru Eu Wau Wau, povo indígena também de língua Tupi-Kagwahiva.

Por estarem sujeitos a uma imensa vulnerabilidade e risco de desaparecimento, o povo Juma é considerado de recente contato e consta entre os povos a serem protegidos por Barreiras Sanitárias, cuja instalação foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal a pedido dos povos indígenas, de representantes da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), por meio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n° 709 (ADPF 709). O pedido foi feito em julho de 2020 e o Ministro Luís Roberto Barroso deferiu. Porém, diante das dificuldades alegadas pelo Governo Bolsonaro, o ministro deu o prazo de até setembro de 2020 para que as Barreiras na TI Juma fossem instaladas. Em agosto de 2020 o Governo Bolsonaro disse que iria fazer a Barreira no rio Assuã, na REBIO Tufari, fora da TI Juma, seria uma Barreira Sanitária composta pela Polícia Militar e DSEI-Humaitá. No entanto, em dezembro do mesmo ano, afirmou que faria apenas um posto de controle de acesso na BR 230 – Rodovia Transamazônica, mas não comprovou o seu efetivo funcionamento.

Se o posto de acesso funcionou ou não, como vinha representantes da COIAB e APIB cobrando há meses nas Salas de Situação com o Governo Bolsonaro, já não importa mais para Aruká. O que se sabe, comprovadamente, é que ele agora está morto. É tristemente com seus mortos que os povos indígenas comprovam seus apelos. A COIAB e APIB avisaram que os povos indígenas de recente contato estavam em extremo risco. O último homem sobrevivente do povo Juma está morto. Novamente, o governo brasileiro se mostrou criminosamente omisso e incompetente. O governo assassinou Aruká. Assim como assassinou seus antepassados, é uma perda indígena devastadora e irreparável.

Manaus, Amazonas, 17 de fevereiro de 2021.

Foto: Odair Leal/Amazônia Real

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

Opi – Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato

Bolsonaro e Biden se encontrarão em reunião sobre Amazônia

O presidentes Jair Bolsonaro (sem partido) terá seu primeiro encontro com o recém-empossado presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. O chefe do Executivo brasileiro e o democrata norte-americano se reunirão virtualmente em um evento global com a participação de outros líderes mundiais.

De acordo com o jornal O Globo, Biden e Bolsonaro se encontrarão em 22 de abril, Dia da Terra, em uma reunião organizada pelo governo dos Estados Unidos. A Amazônia será o foco principal dos debates, e o presidente brasileiro está na lista dos convidados da Casa Branca.

 

Biden já ameaçou aplicar sanções econômicas ao Brasil diante da condução frágil do governo no combate ao desmatamento na Amazônia. Em novembro, logo após a vitória do democrata sobre Donald Trump, Bolsonaro reagiu incitando pegar em armas contra os Estados Unidos. Sem citar o nome de Biden, disse que uma solução “apenas pela diplomacia não dá” e que “depois que acabar a saliva tem que ter pólvora”.

Bolsonaro parabenizou Biden somente no dia da posse, em 20 de janeiro. Em tom diplomático, o presidente brasileiro cumprimentou o americano e disse que lhe enviou uma carta expondo um “excelente futuro para a parceria Brasil-EUA”.

O chefe do Executivo só reconheceu a vitória de Biden sobre Trump, de quem o brasileiro era aliado, 38 dias após o resultado das urnas favorável ao democrata. O presidente foi orientado por Nestor Forster, embaixador nos Estados Unidos, a não se posicionar sobre o pleito porque Trump insistia na tese mentirosa de fraude.

Em 28 de janeiro, ao fim de uma coletiva, Biden foi questionado quando pretendia conversar com Bolsonaro. A pergunta foi feita pela repórter Raquel Krähenbühl, correspondente da Globo nos Estados Unidos e representante da emissora nas coberturas do cotidiano da Casa Branca.

“Senhor presidente, quando o senhor vai falar com o presidente brasileiro?”, perguntou Krähenbühl, no Salão Oval da Casa Branca. “Quando vai falar com Bolsonaro?”. Biden olhou para a repórter, riu e colocou a máscara, ainda em silêncio.

Carrefour adota parque Lago do Cuniã em Porto Velho, mas financia desmatamento em suas cadeias

Foto: Carrefour adotou a Reserva Extrativista do Lago do Cuniã, em Rondônia, por um ano, com possibilidade de prorrogação por mais quatro – Divulgação / Prefeitura de Porto Velho

Rede varejista de origem francesa foi a primeira empresa a aderir ao programa Adote um Parque, do governo Bolsonaro

O Ministério do Meio Ambiente lançou, na última terça-feira (9), um programa de “adoção” de parques para custear a conservação da Amazônia.

A contradição é que a primeira empresa anunciada como parceira do Adote um Parque, o Carrefour Brasil, possui uma série de violações ambientais em suas cadeias de fornecimento.

A rede de supermercados de origem francesa desembolsará cerca de R$ 3,8 milhões e ficará responsável por preservar 75,9 mil hectares de floresta, na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã, em Rondônia, por um ano, com possibilidade de prorrogação por mais quatro.

“É o que se chama de greenwashing, que é uma maquiagem, uma fachada que a empresa coloca para dissimular suas práticas predatórias”

Ao todo, foram colocadas para “adoção” 132 áreas unidades de conservação (UCs). Somadas, elas representam 15% do território da Amazônia, segundo o Ministério.

Leia mais: Salles coloca 15% da Amazônia para “adoção” e deixa perguntas centrais sem resposta 

“O Carrefour não tem moral para adotar um parque se ele não consegue conter a sua parcela de desmatamento da Amazônia. Ele está patrocinando o crime, na medida em que não rastreia sua cadeia produtiva”, avalia Marques Casara, diretor executivo da agência Papel Social, especializada em pesquisa de cadeias produtivas e projetos de comunicação nas áreas de direitos humanos e o meio ambiente.

Baseado em pesquisas realizadas para instituições como a Oxfam Brasil e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), Casara ressalta que o Carrefour “financia a devastação da Amazônia” ao comprar carne de fornecedores que “criam gado em terra indígena e em área de desmatamento ilegal.”

“Então, [a adoção de áreas na Amazônia] é uma jogada de marketing”, completa Casara. “É o que tecnicamente se chama de greenwashing, que é colocar uma maquiagem, uma fachada para dissimular suas práticas predatórias”, conclui.

 

Para Angela Kuczach, diretora executiva da Rede Pró-Unidades de Conservação (Rede Pró-UC), engajar a sociedade no apoio e na valorização das áreas protegidas requer transparência e credibilidade.

Ela enumera uma série de perguntas que não foram respondidas até o momento pelo Ministério.

“Tem que garantir transparência nos processos. Quais os critérios para eleger as unidades de conservação? O que se espera dessa adoção? Como isso vai ser feito? Quais resultados serão apresentados? O que a empresa está ganhando ao apoiar? É importante para a sociedade entender e não deixar nenhum tipo de desconfiança”, analisa.

Outra preocupação de Kuczach é o papel do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que será responsável pela gestão das áreas, segundo o decreto de lançamento do programa Adote um Parque.

“Se a gestão é do ICMBio, essa instituição tem que ser cada vez mais fortalecida”, lembra a diretora executiva da Rede Pró-UC.

“Essa ameaça de fusão entre ICMBio e Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] é muito negativa. Não faz o menor sentido tentar atrair a iniciativa privada para apoiar as unidades de conservação e, ao mesmo tempo, tentar extinguir o órgão que gere as unidades”, acrescenta.


Foram colocadas para adoção 132 unidades de conservação na Amazônia / Marcelo Camargo/Agência Brasil

Posicionamento do Carrefour

Brasil de Fato entrou em contato com o Carrefour para responder aos questionamentos.

Em nota enviada por seu setor de sustentabilidade, o Grupo Carrefour internacional informou que possui um plano de ação para acelerar seus esforços no combate ao desmatamento.

O CEO da rede, Alexandre Bompard, está liderando uma coalizão internacional de fabricantes e varejistas para tomar medidas que envolvam todos os atores da cadeia de fornecimento.

“Esta coalizão trabalha para erradicar o desmatamento em toda a cadeia de fornecimento – e isso é um desafio para comerciantes, agricultores, fornecedores – além de colaborar com os governos e a sociedade civil”, diz o texto.

Confira ainda: Fusão entre Ibama e ICMbio irá paralisar políticas ambientais, alerta servidor 

“No Brasil, para responder às questões de desmatamento ligadas à produção de carne bovina, o grupo mantém uma série de ações, muitas desenvolvidas há anos, sendo que a empresa já monitora 100% das carnes compradas, por sistemas de georreferenciamento via satélite, para garantir que a origem do produto seja sustentável e livre de desmatamento”, completa.

Um dos exemplos citados pela companhia é o compromisso assumido pela Fundação Carrefour de desenvolver uma cadeia produtiva “sem desmatamento” até 2030.

“Esta iniciativa apoia mais de 450 criadores de bezerros no estado de Mato Grosso, o principal produtor de carne bovina do país, capacitando-os sobre as melhores práticas de manejo, aumento de produtividade da terra e restauração e conservação da vegetação nativa”, acrescenta a nota.

O projeto conta com apoio financeiro de mais de 2 milhões de euros – cerca de R$ 13 milhões – da Fundação Carrefour.

A rede de supermercados possui uma seção em sua página institucional em que divulga as ações relacionadas à proteção dos direitos humanos nas cadeias produtivas.

Sobre o programa Adote um Parque, especificamente, o Grupo Carrefour Brasil elogiou a iniciativa do governo federal e disse que a “proteção dos 75.000 hectares de floresta é uma iniciativa pioneira para um grupo varejista, que visa a assegurar o não desmatamento no local, melhores condições de vida nas reservas e redução da emissão de CO²”.

Limites

Na avaliação de Casara, embora o Carrefour manifeste preocupação com o desmatamento em suas cadeias produtivas, essas iniciativas esbarram na falta de transparência.

“O programa de rastreamento do Carrefour não funciona, e não apenas para produtos oriundos da Amazônia. Isso ficou demonstrado na pesquisa que a gente fez sobre as frutas, com a Oxfam, na pesquisa que a Repórter Brasil e a Oxfam estão fazendo sobre o café”, afirma. “E, no caso da carne, é muito evidente, porque o Carrefour não rastreia os fornecedores e não oferece as informações com transparência.”

Em junho de 2020, a ONG Repórter Brasil mostrou que os supermercados Carrefour, Grupo Pão de Açúcar e BIG são abastecidos por frigoríficos que têm fornecedores ligados a desmatamento ilegal e criação de gado em terra indígena.

Para Angela Kuczach, impedir que uma empresa apoie uma unidade de conservação sob argumento de que há violações ambientais em suas cadeias seria o “cenário ideal”.

Leia sobre: Amazônia em destruição: entenda e veja como acontecem as fases do desmatamento

No entanto, como o monitoramento transparente das cadeias é uma realidade distante, o mínimo que o governo pode fazer é garantir que a parceria seja realmente efetiva para proteção da biodiversidade.

“A partir disso, a gente iria para esse segundo passo, que é olhar para toda a cadeia, verificar as questões de boas práticas, sustentabilidade e governabilidade da empresa, e como o que ela faz impacta ou não o meio ambiente”, completa. “Seria um refinamento do processo, um passo mais avançado”, afirma.

Responsabilidade corporativa

O problema de falta de transparência nas cadeias produtivas não se restringe à rede de origem francesa. Em janeiro de 2021, a Oxfam Brasil divulgou um relatório que demonstrou que, além do Carrefour, Pão de Açúcar e BIG também não cumprem requisitos básicos de responsabilidade sobre suas cadeias produtivas.


Três maiores supermercados do Brasil não cumprem requisitos básicos de responsabilidade corporativa, segundo a Oxfam / Tânia Rego/Agência Brasil

“O que a gente reparou é que os maiores supermercados estão muito atrelados, ainda, a uma abordagem exclusivamente de auditoria, que é muito limitada”, disse o representante da Oxfam Brasil, Gustavo Ferroni, em entrevista recente ao Brasil de Fato.

“Não há transparência sobre quem foi auditado, quais foram os resultados, que padrão foi utilizado. Faltam informações públicas. Eles não revelam quais as cadeias produtivas críticas e quais os principais problemas”, completou.

Responsáveis pelo controle de 46,6% do setor no país, os três supermercados obtiveram uma média de 4 pontos na tabela da Oxfam, em que a pontuação máxima é 93. O mais bem colocado foi o Pão de Açúcar, com 6,5, contra 2,7 pontos do Carrefour e 2,2 do BIG.

Governo sem credibilidade

Diretor executivo da agência Papel Social, Marques Casara afirma que não é apenas a presença do Carrefour entre os parceiros que causa desconfiança sobre o programa Adote um Parque.

“O programa já começa suspeito por ter o ministro Ricardo Salles [do Meio Ambiente] à frente dele. É um bandido, um inimigo, que opera a favor da violência. Não só ele, como toda a estrutura do governo”, ressalta.

Saiba mais: Cinco cidades de SP foram desmatadas na Amazônia em 2020, de acordo com Inpe

Angela Kuczach, da Rede Pró-UC, concorda que a postura conivente de Salles e do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) diante da devastação do Pantanal e da Amazônia impactam na credibilidade do programa.

“É um governo que, até o momento, não deu nenhum passo na direção de algo positivo na área ambiental; e aí fica muito difícil atrair apoiadores. Como o governo vai apresentar uma proposta dessas se ele mesmo não leva essa agenda a sério?”, questiona.

Brasil de Fato apresentou os questionamentos e críticas ao Ministério do Meio Ambiente, mas não houve retorno.

Fonte: Brasil de Fato/ Douglas Matos

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Ações ambientais do governo Biden impactam o Brasil

Retorno dos EUA ao compromisso internacional pressiona país a seguir a conduta dos signatários

Ao assinar o retorno dos EUA ao Acordo de Paris, compromisso mundial para redução das emissões de gases de efeito estufa, o presidente americano Joe Biden não apenas mostra seu posicionamento interno e externo, como afeta a política ambiental de outras nações, inclusive o Brasil. Para Alessandro Azzoni, professor, economista e especialista em Direito Ambiental, um dos efeitos mais imediatos pode ser o recebimento de recursos destinados ao meio ambiente. “Os países ricos signatários do acordo têm que destinar recursos para os países subdesenvolvidos. A economia americana tem a capacidade de financiar as ações de tratamento de resíduos e de esgotos, cuidar do processo de recuperação ambiental e, ainda, auxiliar na mudança de cultura de produção industrial”, explica.

O posicionamento de Biden tem forte impacto internacional porque dita como deve ser a conduta para todos os outros países. “Para nós, os recursos seriam importantes para a redução do desmatamento e o reflorestamento de áreas degradadas, entre outras medidas, mas o posicionamento americano deixa claro que os países que forem contra o acordo sofrerão represálias”.

Na gestão anterior dos EUA, explica Azzoni, Donald Trump incentivou a industrialização, saiu do Acordo de Paris e flexibilizou normas ambientais, voltando sua economia só para crescimento, alegando ser cético sobre o impacto da produção humana para o aquecimento global. No entanto, o mundo pensa diferente do ex-presidente americano: hoje o Acordo de Paris é o principal tratado mundial do tema, estabelecido pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC), com quase 200 países signatários e que substituiu o Protocolo de Kyoto. Entre suas metas, estão: manter o aquecimento global abaixo de 2º C, limitando-se a 1,5ºC; investir em modelos de energia que saiam da matriz fóssil garantir que que nações ricas destinem US$ 100 bilhões ao ano em ações de combate às mudanças no clima do planeta e de ajuda a países em desenvolvimento para implantar essas ações.

Alessandro Azzoni pondera que mesmo após essa mudança em relação ao governo anterior, Joe Biden tem questões internas pendentes. “Todas as medidas do governo Trump ocorreram por meio de decretos e foi mais fácil para o novo presidente recompor a posição do país no tema ambiental. O que não será fácil é cumprir as metas do acordo, porque os países signatários têm que elaborar uma política de emissão de gases de efeito estufa e, na prática, isso quer dizer rever a matriz energética, meios de transporte e linhas de produção”, enumera. Segundo o professor, as ações são desafiadoras para o líder americano porque todas essas mudanças terão que ser discutidas nos congressos e com a indústria do país. “Se o país não tomar medidas realmente concretas, as ações se mostram apenas paliativas e não ativos ambientais. Não foram firmados compromissos com prazos, apesar da citação do ano de 2035 para reformulação da matriz energética”, destaca ele.

PERFIL

Alessandro Azzoni é advogado e economista, especialista em direito ambiental, com atuação nas áreas do Civil, Trabalhista e Tributário. É mestre em Direito da Universidade Nove de Julho, especializado em Direito Ambiental Empresarial pela Faculdade Metropolitanas Unidas (FMU). Graduado em direito pela FMU. Bacharel em Ciências Econômicas pela FMU. Professor de Direito na Universidade Nove de Julho (Uninove). É Conselheiro Deliberativo da ACSP – Associação Comercial de São Paulo; Coordenador do NESA -Núcleo de Estudos Socioambientais – ACSP – Associação Comercial de São Paulo; Conselheiro membro do conselho de Política Urbana – ACSP – Associação Comercial de São Paulo; Membro da Comissão de Direito Ambiental OAB/SP.

Desmatamento afasta financiadores do agronegócio

Cargill, Bunte e ADM foram excluídas de dois fundos administrados pelo Danske Bank. Administrando atualmente € 237 bilhões (R﹩ 1,53 trilhão), a instituição é o segundo maior gestor de ativos escandinavo. A informação, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, consta em uma lista de restrição de investimentos do fundo publicada em setembro de 2020, quando o Brasil enfrentava nova alta nas queimadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

Conforme informou à imprensa o diretor de investimento sustentável do Danske Bank, Erik Eliasson, “Até que haja uma agenda política mais forte e planos de ação e compromissos concretos para proteger as florestas tropicais, as empresas que compram na região provavelmente estarão expostas e contribuindo para o desmatamento das florestas, independentemente de quão fortes práticas de manejo possam ter. Por sua vez, essas empresas podem ser afetadas por graves riscos de reputação e diminuição da demanda do consumidor.”

O monitoramento ambiental de cadeias globais de commodities já é feito por algumas organizações. Em setembro, quando as gigantes foram excluídas dos fundos escandinavos, a ONG americana Mighty Earth informou que Bunge e Cargill são as piores infratoras por altos riscos de desmatamento nas cadeias de abastecimento, após analisar o ranking dos principais comerciantes de soja. Seu relatório informa que “Independentemente dos problemas em todas as cadeias de abastecimento, é claro que a Bunge e a Cargill se destacam do resto em termos de políticas fracas de sustentabilidade da soja, monitoramento, relatórios e divulgação insuficientes, áreas de abastecimento de alto risco e, o mais importante, os grandes volumes de liberação dentro de suas cadeias de abastecimento”.

Outro sistema de monitoramento, da Trase, divulgou relatório em junho do ano passado mostrando que Bunge e Cargill são as empresas mais expostas a risco de desmatamento no Mato Grosso, o maior produtor de soja do Brasil, entre os negociadores da commodity que exportam para a China. No caso da exportação para a União Europeia, a ADM também aparece entre as mais expostas.

Eliasson lembrou que dados do Inpe divulgados em novembro do ano passado confirmaram que o desmatamento atingiu seu nível mais alto desde 2008, transformando 2020 em um dos piores anos em mais de uma década, em termos de hectares de terra desmatada. “Apesar dos compromissos das empresas [com políticas de proteção ambiental], a taxa anual de desmatamento das florestas tropicais da Amazônia continua em um ritmo alarmante”, declarou à imprensa.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/02/fundo-escandinavo-exclui-cargill-bunge-e-adm-por-desmatamento-no-brasil.shtml

Grupo de acadêmicos defende CPI da Amazônia no Congresso dos EUA

James Green em entrevista à DW, enviou dossiê sobre Brasil a Biden

Durante a disputa eleitoral contra Donald Trump, o então candidato Joe Biden colocou a Amazônia no centro do debate. Reiteradamente, o democrata ressaltou a importância da floresta tropical para o planeta e anunciou planos de aportes financeiros para apoiar sua preservação.

Na presidência, Biden terá o desafio de provar com ações concretas o seu comprometimento com o bioma. A pressão pelo cumprimento das promessas cresceu nesta semana, quando a Rede dos Estados Unidos para Democracia no Brasil fez chegar ao presidente um dossiê de 31 páginas que pede a suspensão de acordos comerciais e políticos com o governo de Jair Bolsonaro.

Entre outras medidas, o documento pleiteia que o novo governo dos EUA encerre o apoio financeiro a atividades relacionadas ao desmatamento na Amazônia. A extensa lista de recomendações tem por objetivo garantir que a administração do democrata não endosse violações socioambientais observadas atualmente no Brasil.

Apoiada por mais de 150 acadêmicos das principais universidades dos EUA, ONGs e entidades como a Amazon Watch e a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), a U.S. Network for Democracy in Brazil deriva de uma mobilização iniciada em 2018, após a eleição de Jair Bolsonaro.

O grupo é coordenado pelo historiador James Green, de 69 anos. Antes de se tornar um conceituado brasilianista, ele se engajou como ativista, nos anos 1970, em atividades de denúncia das torturas praticadas pela ditadura militar brasileira.

Nesta entrevista à DW Brasil, Green reconhece que a Amazônia e a agenda ambiental ocupam, hoje, o lugar que os direitos humanos tiveram naquele período como principal plataforma de sensibilização da opinião pública dos EUA sobre a situação vivida no Brasil. Aumentar a visibilidade das violações em curso é um dos objetivos da elaboração do dossiê.

Ele comenta que, em meio à gestão da pandemia e à divisão política no Senado, não se sabe quando Joe Biden terá tempo para ler o documento entregue pelas mãos de Juan Gonzalez, principal responsável por políticas sobre a América Latina no novo governo e assessor de confiança do presidente desde que trabalharam juntos na administração de Barack Obama.

Até lá, o grupo aposta em ações junto a parlamentares. O objetivo é intensificar contatos em curso e pleitear a criação de uma CPI da Amazônia no Congresso dos EUA.

“A ideia é investigar quais são as medidas corretas que EUA devem implementar para fazer valer as leis em vigor que já proíbem certas irregularidades, como a importação de madeira ilegal. Queremos também avaliar o que podemos fazer como país para respeitar a legislação brasileira que defende a Amazônia e se destina ao combate e prevenção do desmatamento”, afirma.

O documento chegou às mãos de Joe Biden por intermédio de Juan Gonzalez, homem de confiança do presidente desde a administração Obama e responsável por políticas sobre a América Latina no novo governo. É um indício de que as recomendações serão levadas em conta?

Nós não temos notícias de que o presidente já leu o documento. Sabemos que o material está chegando a Biden por várias pessoas próximas a ele, dentre elas assessores, secretários e membros do gabinete. Acreditamos que vai ser considerado pelos especialistas do governo dele. Mas, desde já, achamos interessante a receptividade de pessoas na administração dele e no Congresso. Vários senadores e congressistas que têm trabalho de varias maneiras, ao longo dos últimos quatro anos, para levantar questões sobre o Brasil em Washington.

Isso é muito importante, porque o governo brasileiro tem seus esforços e lobby sobre a realidade por meio de sua embaixada e da atuação do Itamaraty. É uma contra-narrativa sobre o que está acontecendo no Brasil. Inclusive, Bolsonaro e o embaixador enviaram comunicações cínicas ao presidente Biden, dizendo que o presidente do Brasil defende o meio ambiente e os direitos humanos. São tentativas de encobrir e falsificar a realidade brasileira para o público americano e a administração dos EUA. É muito significativo que tenhamos um apoio amplo de pessoas que têm um conhecimento muito profundo sobre o Brasil nas melhores universidades dos EUA, bem como das organizações mais importantes nessa área.

Em 2020, parlamentares dos EUA chamaram Bolsonaro de “pseudoditador” e classificaram acordos entre os dois países como “um tapa na cara do Congresso”. Qual pode vir a ser o peso de uma pressão maior do Legislativo sobre as ações de Biden referentes ao Brasil?

Nosso grande desafio é o pouco conhecimento que as pessoas têm sobre o Brasil aqui nos EUA. Há uma série de estereótipos sobre o país, mas sem uma noção profunda sobre sua história, cultura e realidade. Portanto, um de nossos objetivos é informar as pessoas, tanto o público em geral como os congressistas, para realmente isolar o governo atual e defender os movimentos sociais populares no Brasil e as conquistas logradas ao longo dos últimos 40 anos, desde o retorno à democracia. É também uma tentativa de apoiar as forças que estão lutando por um país mais justo e igualitário.

Nesse sentido, o Congresso pode cumprir um papel simbólico de fazer declarações ou ações legislativas concretas para isolar as forças autoritárias, fascistas e antidemocráticas no Brasil. Nosso trabalho é muito ligado aos movimentos sociais. Somos uma rede apartidária, democrática e descentralizada, mas que está muito em diálogo com as forças democráticas brasileiras que estão lutando por um países mais justo e igualitário. Parte do nosso trabalho no Congresso é de informar os deputados, criar laços e alianças.

Há receptividade aos debates sobre o Brasil?

Na Câmara dos Deputados, por exemplo, existe um bloco de afrodescendentes com quem há um diálogo sobre a maneira como os afro-brasileiros sofrem com violência e discriminação no país. Trabalho semelhante é feito com deputados que se preocupam com os direitos indígenas nas Américas. Inclusive, nós tivemos um trabalho muito importante com a Debra Haaland, nova ministra do Interior, que trata das terras indígenas federais nos EUA, além de outras pessoas ligadas às questões gerais de direitos humanos e justiça social. Em parte, o objetivo é criar laços com esses deputados e senadores para abrir possibilidades de ações legislativas que possam modificar essa realidade.

É importante frisar que não falamos do lugar de cidadãos de um país maravilhoso. Nós temos aqui um movimento de milhões de pessoas que apoiam ideias reacionárias, e até fascistas. Houve uma insurreição em janeiro, e o ex-presidente está sendo alvo de um processo de impeachment por essa razão. Não estamos dizendo que a democracia americana é melhor. Isso é um discurso histórico totalmente falho. Entendemos nossas lacunas, mas enquanto especialistas em nossas áreas, com formação sobre a realidade brasileira ou ligação forte com o país, sentimos obrigação de levantar nossas vozes e declarar claramente que o governo atual dos EUA não deve ter relações normais com um governo que está cometendo graves violações de direitos humanos e outras medidas que não favorecem o povo brasileiro.

 

 

No documento, vocês afirmam que os EUA têm “obrigação moral e interesse prático” em se opor a inciativas do atual governo brasileiro. Por quê?

Sabemos que no passado, infelizmente, o governo democrata do Lyndon Johnson apoiou o golpe de 1964. Em 1962, a CIA ajudou a financiar campanhas contra o governo brasileiro com cerca de 5 milhões de dólares, que representam 30 milhões em valores atuais. Houve uma interferência direta do governo americano para derrubar um governo democraticamente eleito e a democracia no Brasil. Nesse sentido, o governo atual pode ter uma postura diferente ante o Brasil, de defender a democracia em vez de um movimento autoritário. Se o governo dos EUA, seja democrata ou republicano, afirma em seu discurso que defende a democracia, temos a obrigação moral de ir contra regimes autoritários, mesmo que não façamos isso dentro do país.

Concretamente, nosso objetivo é acabar com o apoio financeiro a medidas e atividades em áreas que contrariam os interesses brasileiros. Um exemplo é a reivindicação para que se interrompa a importação de madeira brasileira e demais produtos extraídos da floresta amazônica ilegalmente, uma vez que incentivam o desmatamento. Esse mercado ilegal de madeira precisa ser eliminado. Já existem leis americanas que proíbem esse tipo de importação, bem como uma legislação brasileira contra o desmatamento que está sendo violadas pelo governo atual.

Durante a ditadura militar, o apelo à situação dos direitos humanos no Brasil era o principal fator de mobilização internacional contra o governo. Na oposição a Bolsonaro, essa agenda deu lugar à Amazônia e a defesa do meio ambiente?

Com certeza. O grande desafio de levar adiante as denúncias de violações nos anos 1960 e 1970 era a capacidade de circular informação sobre o Brasil. Hoje em dia, o acesso à informação é imediato. O nosso relatório mesmo foi massivamente divulgado, em muito pouco tempo. Apesar da saturação gerada pelo volume de informações que circulam nas redes, isso nos ajuda muito, hoje, a dar visibilidade para a questão mais importante da atualidade, que é a destruição da floresta amazônica. No segundo debate da campanha eleitoral, Biden declarou claramente que é uma preocupação dele. Esperamos agora que ele tenha uma política correta de enfrentamento dessa realidade. É uma preocupação que se observa em nível mundial, que já está na consciência das pessoas. Vamos lutar pra ter uma CPI no Congresso dos EUA sobre a Amazônia e o meio ambiente, bem como organizar outras atividades no futuro para falar mais sobre essa realidade.

Chama atenção que, quando Bolsonaro foi eleito, todos os canais de televisão que comentavam a lista de governos autoritários pelo mundo incluíram Bolsonaro na lista. Então, mesmo quem não conhece muito sobre o Brasil sabe que tem um governo autoritário no país, com um presidente que se chama Jair Bolsonaro. Isso está circulando entre intelectuais e jornalistas que têm feito reportagens de grande circulação sobre essa realidade, seja na imprensa inglesa, francesa ou israelense. Esse cenário cria possibilidades muito melhores do que nos anos 1970, quando saíam notícias esparsas sobre o tema e poucos sabiam o nome do ditador de plantão.

Quais seriam os objetivos dessa CPI no Congresso dos EUA?

A ideia é investigar quais são as medidas corretas que EUA devem implementar para fazer valer as leis em vigor que já proíbem certas irregularidades, como a importação de madeira ilegal. Queremos também avaliar o que podemos fazer como país para respeitar a legislação brasileira que defende a Amazônia e se destina ao combate e prevenção do desmatamento. O enfoque se dirige às relações comerciais, para que se respeite não só o meio ambiente, mas também as leis trabalhistas no Brasil. É difícil e delicado impor esses critérios, mas são estas as condições que esperamos ver em discussão no Congresso daqui. Não para impor, mas respeitar as leis e a igualdade das nações.

Além de proteger a floresta, nós precisamos defender os povos indígenas das Américas, ao longo de séculos vítima de um processo de genocídio pelos brancos. Isso envolve tanto os EUA como o Brasil. Portanto, temos que nos opor claramente a medidas que violem territórios dos povos indígenas, como felizmente o Biden fez recentemente ao vetar um canal de petróleo do Canadá para os EUA cuja obra estava quase concluída por atravessar territórios indígenas e pelo risco de impacto ambiental. A medida havia sido muito apoiada pelo governo de Trump e empresários petrolíferos. Queremos também defender o povo indígena brasileiro, que está neste momento lutando contra as pessoas que estão invadindo seus territórios para exportar madeira, fazer mineração e outras atividades que contrariam esses interesses.

Fora da agenda ambiental, que outro tema merece destaque?

Um exemplo importante é a base espacial de Alcântara (MA), onde os EUA têm um acordo de muitos anos com o Brasil para realizar nesse espaço investigações científicas e de questões relacionadas a projetos espaciais. Isso está provocando o deslocamento de comunidades quilombolas que, no passado, conduziram uma série de negociações e lutas para estabelecer direitos de ocupar um território agora utilizado pelo governo brasileiro com apoio dos EUA devido a esse acordo.

Conclamamos nosso governo a não financiar nenhum projeto que possa expulsar povos quilombolas. Inclusive, parte desses deslocamentos e negociações foram negociados durante a ditadura militar, quando não havia a possibilidade de uma articulação democrática em torno dos direitos desses povos. É mais um exemplo de como o dinheiro americano está sendo utilizado para uma atividade no Brasil que julgamos incorreta. Não somos contra acordos, achamos perfeito que os dois governos negociem, mas é preciso que meio ambiente, os direitos laborais e os direitos humanos sejam considerados. Não é correto fazer medidas com o Brasil que violem esses direitos democráticos, dos quais os EUA se reivindicam defensores em todo o globo.

Embora os EUA se posicionem historicamente em favor da democracia, dos direitos humanos e da preservação ambiental, a influência do poder econômico sempre comprometeu a real efetivação desses discursos. As sinalizações iniciais de Joe Biden indicam uma busca maior por coerência no novo governo?

Esta é uma questão muito importante. Eu não tenho ilusões sobre a administração de Biden. Ele representa o “Centrão” do Partido Democrata: tem um histórico de negociações e boas relações com os partidos republicanos. E podemos conversar sobre uma série de medidas do governo Obama, no qual Biden foi vice, com as quais não estou de acordo — dentre elas, o grampo da ex-presidente Dilma Rousseff, para mim uma grande violação dos direitos dela e várias pessoas de sua administração. Porém, o governo Trump foi tão desastroso por quatro anos, que o Biden conseguiu reunir em uma frente única todos os setores democráticos, inclusive aqueles mais à esquerda e progressistas. Ele foi defendido especialmente pela base do partido, muito alicerçada na comunidade negra, grandes setores de latinos e brancos progressistas ou liberais que realmente não aguentavam mais a política do governo de Trump. Nesse sentido, Biden está muito atento e fez várias promessas de manter essa base dele.

Isso se observa na composição de seu gabinete, o mais diverso da história do país. É um contraste grande com o ministério de Michel Temer ao assumir, formado exclusivamente por homens brancos. É claro que estamos falando de coisas simbólicas, como ter um gay assumindo o Ministério dos Transportes. Isso não necessariamente modifica a política, mas é importante porque altera a configuração do governo e abre possibilidade para novas políticas. Há várias correntes no Partido Democrata que ele precisa atender. Até agora, Biden está conseguindo levantar algumas medidas progressistas e estou satisfeito nesse sentido. Certamente, ele irá implementar muitas politicas com as quais não estarei de acordo no futuro. Porém, eu entendo as limitações do tipo de governo e de sistema econômico que temos nos EUA. Ele não foi eleito para fazer uma revolução, mas sim derrubar a política de Trump e retomar a dita normalidade.

Bolsonaro sempre recorre à noção de soberania nacional quando recebe críticas sobre a gestão ambiental de seu governo. Dado o histórico de intervencionismo dos EUA, a tese do presidente brasileiro não seria legitimada por eventuais ações de represália do governo Biden?

Precisamos verificar quem está falando em nome da soberania e dos interesses brasileiros: Bolsonaro e os empresários que o apoiam ou os povos indígenas que vivem na Amazônia? Eu não sei qual será a posição do Biden sobre as nossas recomendações, mas nós baseamos essas diretrizes nas articulações dos movimentos que defendem a floresta, seus povos e a vida sustentável no Brasil. Não estamos ouvindo o agronegócio, interessado em aumentar o desmatamento e seus lucros. Não seguimos a visão dos setores interessados em exportar madeira e extrair minerais ilegalmente em territórios indígenas sem o consentimento desses povos. Nós queremos criar políticas corretas, que respeitem o Brasil e sua soberania. Não somos a favor de intervenções, estamos apenas ouvindo o que reivindicam os povos indígenas e suas organizações livres de manipulação.



Fonte: Deutsche Welle 

Carrefour é primeira empresa a adotar área da Amazônia

(Bloomberg) — O Carrefour no Brasil fechou acordo com o Ministério do Meio Ambiente para patrocinar uma área da Amazônia como parte do novo programa “Adote um Parque”, que será lançado amanhã pelo governo.

O Carrefour se comprometeu a investir R$ 4 milhões por ano na preservação de uma área de conservação, disse o ministro Ricardo Salles em entrevista na sexta-feira. A unidade brasileira da varejista francesa confirmou a negociação em comunicado à Bloomberg News, o que marca o pontapé inicial da visão do ministro para uma estrutura que regule a gestão de recursos externos na região. O presidente Jair Bolsonaro assinará o decreto criando o programa em solenidade amanhã, após um atraso de seis meses.

Companhias nacionais e internacionais – empresas, fundos de investimento ou mesmo pessoas físicas – podem patrocinar a preservação de uma unidade de conservação da floresta por 10 euros por hectare para estrangeiros e R$ 50 para empresas nacionais. O programa oferece a Salles e a Bolsonaro a chance de enfrentar a onda de críticas sobre a gestão da floresta, transferindo parte da responsabilidade na preservação e manutenção de áreas para entidades privadas.

Cerca de 15% da Amazônia, ou 63 milhões de hectares, está disponível para patrocínio. No entanto, a postura de Bolsonaro em relação à floresta como um todo – minimizando o impacto dos incêndios e desautorizando ONGs, ambientalistas e apoio de governos estrangeiros – atraiu uma onda de críticas de investidores. A postura do presidente e o aumento do desmatamento também vêm dificultando os esforços do Brasil para aderir à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo reportagem da Folha de S.Paulo no sábado.

O acordo com o Carrefour Brasil torna a empresa responsável pela preservação de 75 mil hectares de floresta, uma área que equivale à cidade de Nova York, e prevê o patrocínio por um ano, renovável por mais quatro. O Carrefour chegou a ser excluído de índice de sustentabilidade socioambiental após a morte de um homem negro por seguranças em um supermercado da rede em Porto Alegre no ano passado.

Outras cinco empresas devem aderir nos próximos dias ao programa de adoção, segundo Salles, que não revelou os nomes porque as negociações estão em andamento. O ministro disse que, juntas, as seis empresas podem destinar R$ 14 milhões para os esforços de proteção da Amazônia.

Esse valor seria equivalente à metade do apoio financeiro que o governo aloca a cada ano para a proteção dessas áreas. “Para se ter uma ideia, hoje o governo investe R$ 28 milhões por ano para manter todas as áreas de conservação da Amazônia”, disse o ministro. “Com apenas seis empresas, já chegamos à metade desse valor.”

O “Adote um Parque” não é um programa de concessão ou venda de terras e a parceria exige que as empresas assumam o dever de proteger as áreas contra queimadas e desmatamento, regenerem florestas degradadas e invistam em melhorias de infraestrutura. Essa tarefa não será fácil: o ritmo das queimadas atingiu recorde no ano passado.

Trabalhando com Biden

Quando candidato à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden disse que o governo americano deveria mobilizar US$ 20 bilhões para impedir a destruição da floresta amazônica e impor “consequências econômicas significativas” se o desmatamento continuasse, o que desagradou Bolsonaro.

Salles trabalha para moderar esse tom, sinalizou. Na semana passada, o ministro se encontrou com o embaixador dos EUA no Brasil, Todd Chapman, em Brasília, e prometeu resolver qualquer mal-entendido. “Deixei claro durante a reunião com Todd que estou 100% alinhado e disposto a trabalhar com o governo Biden na questão ambiental”, disse Salles. “Estou otimista que vamos fazer coisas positivas em parceria.”

Em carta enviada dia 29 de janeiro a Biden e à vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, intitulada “Plano de Proteção da Amazônia”, um grupo de embaixadores, ex-secretários do governo dos EUA e especialistas em mudança climática pediu ações do presidente americano para a proteção da floresta, dizendo que sua sobrevivência “exigirá novas políticas, diplomacia qualificada e grande determinação”.

Salles disse que concorda com algumas críticas apontadas pelo grupo climático, mas que a chave é o financiamento: “Espero receber os US$ 20 bilhões que Biden prometeu durante a campanha. Esses fundos são muito bem-vindos”.

Fonte: Bloomberg/ Yahoo Noticias

Pesquisa IBOPE: brasileiros se preocupam muito com a questão ambiental

Levantamento mostra ainda que consumidores e eleitores já fazem escolhas cada vez mais coerentes com seus valores ambientais

Quatro em cada cinco brasileiros acham que as queimadas na Amazônia prejudicam a imagem do Brasil no exterior e 78% entendem que elas podem prejudicar também as relações comerciais com outros países. Para 77% dos brasileiros, proteger o meio ambiente é mais importante, ainda que isso signifique menos crescimento econômico. Entre os brasileiros, é praticamente uma unanimidade que o aquecimento global está acontecendo (92%) e já pode prejudicar – e muito – a atual geração (72%). E a relação entre queimadas e clima é percebida por quase todos os brasileiros: 90% concordam que as queimadas na Amazônia são uma ameaça para o clima e o meio ambiente do planeta e 92% acreditam que elas prejudicam a qualidade de vida da população.

Essas são algumas conclusões da pesquisa IBOPE Inteligência encomendada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade – ITS Rio em parceria com o Programa de Comunicação de Mudança Climática da Universidade de Yale (Yale Program on Climate Change Communication) com brasileiros de todas as regiões, classes e níveis de escolaridade, refletindo o perfil da população brasileira acima dos 18 anos. Ela mostrou percepções e opiniões da sociedade, que de forma geral vão no sentido contrário a algumas das políticas ambientais do país.

A pesquisa traz também um recado importante para políticos e empresários: quase metade dos brasileiros (42%) declarou já ter votado em algum político em razão de suas propostas para defesa do meio ambiente e mais da metade (59%) deixou de comprar ou usar algum produto que prejudique o meio ambiente.

“A atual política ambiental do Brasil nos isola no cenário internacional e pode nos custar empregos e atrasar nossa recuperação pós-Covid. O Brasil caminha na direção contrária do que esperam os investidores e líderes internacionais, bem no momento em que o mundo se realinha para combater o problema das mudanças climáticas”, analisa Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Quando perguntados sobre quem pode contribuir para resolver o problema das mudanças climáticas, os governos e as empresas foram os mais citados, por 35% e 32% dos entrevistados, respectivamente. “O entendimento dos brasileiros reflete o que desejam consumidores e investidores. As empresas devem buscar desempenhar um papel mais estratégico no desenvolvimento sustentável. Várias corporações já se uniram nesse esforço, mas precisamos avançar mais se quisermos permanecer relevantes nas cadeias econômicas globais”, completa Marcello Brito, representante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento que reúne mais de 270 organizações do setor privado, financeiro, sociedade civil e academia.

A ação humana é vista como a principal causa das queimadas na Amazônia para 77% dos brasileiros. Na questão sobre quem causa as queimadas, os entrevistados podiam apontar mais que um responsável. Os mais citados foram madeireiros (76%), agricultores (49%), pecuaristas (48%) e garimpeiros (41%). Mesmo quando se considera apenas o indicado em primeiro lugar, estes atores continuam sendo os mais citados. Perguntados sobre de quem é a responsabilidade em contribuir para resolver o problema, mais da metade da população (54%) entende que a responsabilidade é do governo.

Segundo Anthony Leiserowitz, diretor do Yale Program on Climate Change Communication, há semelhanças e diferenças entre o Brasil e os Estados Unidos: “Os resultados são fascinantes – eles nos ajudam a entender a opinião pública brasileira e fornecem um contraste muito interessante com a opinião pública nos Estados Unidos. Por exemplo, 92% dos brasileiros entendem que o aquecimento global está acontecendo. Nos Estados Unidos, esse percentual é de apenas 73%. Da mesma forma, 78% dos brasileiros dizem que o aquecimento global é uma questão muito importante, em comparação com apenas 37% dos americanos. Ao mesmo tempo, também vemos padrões semelhantes entre os dois países. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, os jovens, aqueles que se declaram mais à esquerda no espectro político, com ensino superior e as mulheres, afirmam conhecer mais e estar mais preocupados com as mudanças climáticas, o desmatamento e o meio ambiente do que os entrevistados mais velhos, que se declaram mais à direita politicamente, com menor grau de instrução e homens. Esperamos que esses resultados sejam úteis para muitos atores no Brasil, como funcionários do governo, líderes empresariais e organizações da sociedade civil.”

Para Rosi Rosendo, diretora de contas na área de Opinião Pública, Política e Comunicação do IBOPE Inteligência, “Os resultados da pesquisa apontam para uma grande preocupação da população brasileira em relação ao meio ambiente, pauta que tem tomado conta dos noticiários nos últimos anos, principalmente em função das queimadas que ocorreram na Amazônia em 2019 e no Pantanal e no Cerrado no segundo semestre de 2020, ambos acontecimentos tiveram forte repercussão internacional. As queimadas foram percebidas pelos brasileiros como acontecimentos que prejudicam a imagem do Brasil no exterior e que podem até impactar negativamente a relação comercial com outros países. No entanto, ainda que a população considere importante a preservação do meio ambiente, há muito que se avançar em termos de educação e disseminação de conhecimento sobre as mudanças climáticas e o aquecimento global, já que apenas um em cada cinco brasileiros declarou saber muito sobre o assunto, resultados que devem ser levados em conta tanto pelo governo quanto pelas empresas em ações de preservação do meio ambiente”, acrescenta Rosendo.

Fabro Steibel, diretor do ITS, explica que novas rodadas da pesquisa serão realizadas e que o objetivo é medir a percepção do brasileiro sobre o clima ao longo dos anos. “Nós percebemos que há pesquisas sobre a percepção de clima, mas elas não têm continuidade. Dando continuidade, poderemos acompanhar se haverá evolução da preocupação”.

“Mudanças Climáticas: a Percepção dos Brasileiros” é uma pesquisa quantitativa realizada pelo IBOPE Inteligência com uma amostra de 2.600 entrevistas, representativa da população brasileira com 18 anos ou mais em todas as regiões do Brasil. O período de campo foi de 24 de setembro a 16 de outubro de 2020, após o qual o ITS se dedicou à análise dos dados em conjunto com os seus parceiros. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para o total da amostra, considerando-se um nível de confiança de 95%. Saiba mais em: https://www.percepcaoclimatica.com.br/

Sobre o Instituto Tecnologia e Sociedade (ITS Rio)

O ITS Rio é uma associação civil sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento de pesquisas e projetos sobre o impacto social, jurídico, cultural e político das tecnologias de informação e comunicação. Com ampla atuação internacional, derivada da experiência e trabalho em sua área específica acumulada por mais de 10 anos por parte dos seus fundadores, o ITS é organizado no modelo de think tank independente. O ITS realiza pesquisas orientadas ao atendimento do interesse público e que gerem reflexões e propostas que avancem o diálogo democrático, a proteção dos direitos humanos e proporcionem impactos relevantes na formação e execução de políticas públicas e práticas privadas. Formado por professores e pesquisadores de diversas instituições como UERJ, PUC-Rio, FGV, IBMEC, ESPM, MIT Media Lab, dentre outras, o ITS conta com uma rede de parceiros nacionais e internacionais. Mais informações: https://itsrio.org

Yale Program on Climate Change Communication

Pesquisa conhecimento, atitudes, preferências políticas e comportamentos públicos em todo o mundo e desenvolve estratégias de comunicação para engajar diferentes públicos na ciência e nas soluções de mudanças climáticas.

Mais informações: https://climatecommunication.yale.edu/

COP26 lança iniciativa internacional para a proteção de florestas

● Ministros de mais de 18 países se reúnem para desenvolver roteiro de comércio internacional que promova cadeias de abastecimento alimentar sustentáveis e proteja as florestas
● Mais de 10 milhões de hectares de floresta, associados à produção global de commodities, são destruídos a cada ano
Uma nova iniciativa para proteger as florestas tropicais do desmatamento, garantindo que o desenvolvimento e o comércio sejam sustentáveis, foi lançada ontem pelo Reino Unido, anfitrião da COP26, conferência de cúpula do clima que acontece em novembro. Trata-se do Diálogo sobre Florestas, Agricultura e Comércio de Commodities (FACT, na sigla em inglês para Forest, Agriculture and Commodity Trade), que reunirá os principais países exportadores e consumidores de produtos agrícolas na busca de soluções que tornem este processo mais verde e sustentável.

O anúncio foi realizado ontem, dia 02/02, por Alok Sharma, presidente da COP26, e mais 18 ministros de diferentes países.

O comércio internacional de commodities como óleo de palma, soja e carne bovina movimenta mais de US$ 80 bilhões por ano em receitas de exportação para os países produtores e contribui para a segurança alimentar e o crescimento econômico nos países consumidores. O setor provê trabalho e subsistência para cerca de 1,5 bilhão de pessoas, a maioria delas em países em desenvolvimento. No entanto, ao mesmo tempo, as florestas continuam desaparecendo em um ritmo alarmante e em alguns casos, o desmatamento está aumentando.

A iniciativa FACT visa acordar princípios para a ação colaborativa em um roteiro compartilhado para a transição em direção a cadeias de abastecimento e a um comércio internacional sustentáveis, tomando medidas agora para proteger as florestas enquanto promove o desenvolvimento e o comércio.

“Tenho orgulho em reunir os países que podem tornar o comércio global mais sustentável para todos”, destacou Alok Sharma, presidente da COP26. “Trata-se de trabalhar em conjunto para proteger nossas preciosas florestas, melhorando a subsistência e apoiando o desenvolvimento econômico e a segurança alimentar, que é uma de nossas principais prioridades para a COP26”.

Também no evento de ontem, a TFA (Tropical Forest Alliance), parceira da iniciativa FACT, anunciou a criação de uma Força-Tarefa Multilateral Global voltada para o comércio de commodities. O grupo de trabalho reunirá mais de 25 personalidades que trabalham com sustentabilidade, que irão canalizar sua expertise e assessorar os diálogos governamentais ao longo do ano.

“Esta ousada iniciativa é uma certeza de que todas as vozes relevantes serão ouvidas, conforme os países se unem para garantir um uso mais sustentável da terra”, comentou Justin Adams, diretor executivo da TFA. “A ação para proteger a diversidade do planeta e estabelecer um futuro sustentável exigirá a colaboração global de toda a sociedade, desde os legisladores e produtores até os consumidores individuais. Esta parceria com a COP26 para a viabilização do FACT é motivo de grande orgulho para nós”.

A 26ª Conferência sobre Mudança Climática da ONU (COP26) acontecerá em Glasgow, de 1º a 12 de novembro de 2021. Sua principal meta é acelerar a ação em direção aos objetivos do Acordo de Paris e da Agenda da ONUA relativa às Mudanças Climáticas.

O evento de ontem pode ser assistido no endereço https://bit.ly/FACTDialogueLive

Sobre a TFA
A Tropical Forest Alliance (TFA), ou Aliança para as Florestas Tropicais, é uma rede que reúne múltiplos parceiros em torno do objetivo comum da busca e da implementação de soluções para o combate ao desmatamento resultante de atividades comerciais em áreas de florestas tropicais. Iniciativa do World Economic Forum, a TFA trabalha com representantes governamentais, do setor privado e da sociedade civil, como povos indígenas e organizações internacionais, na consolidação de parcerias de alto impacto para reduzir o desmatamento e construir um futuro positivo para as florestas. A rede TFA, por meio de seus parceiros, identifica desafios e elabora soluções, reunindo especialistas de todo o mundo para transformar ideias em ações efetivas na América Latina, na África, na China e no Sudoeste Asiático.

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