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MAIS UM CASO: PISTOLEIROS MATAM DOIS CAMPONESES NA BAIXADA OCIDENTAL MARANHENSE – ARARI

 

No último domingo, 5, os trabalhadores rurais, pai e filho, Celino Fernandes e Wanderson de Jesus Rodrigues Fernandes, foram assassinados em sua residência em Arari, interior do estado.

Segundo informações, os suspeitos invadiram a casa e dispararam vários tiros contra as vítimas. O crime foi presenciado pela esposa, filhos e netos. Os lavradores assassinados já haviam denunciado aos órgãos do estado sobre o conflito agrário com latifundiários, envolvendo a comunidade e a família.

De acordo com informações divulgadas no twitter por um advogado, quatro pistoleiros foram os responsáveis pelo crime. Eles chegaram à comunidade e às residências dos camponeses dizendo serem da polícia e que estavam cumprindo ordem de prisão. Estavam com coletes da polícia civil, todos encapuzados, arrombaram as residências e assassinaram os lavradores.

A polícia não tem pistas dos executores dos dois trabalhadores.

Essas são as
duas primeiras mortes em decorrência de conflitos no campo em 2020
registradas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). No ano passado, ainda
conforme dados parciais, a Pastoral contabilizou 30 assassinatos no campo.
Confira a nota na íntegra:

NOTA PÚBLICA DE PESAR, REPÚDIO E SOLIDARIEDADE

As organizações da sociedade civil, que está assinam, vêm a público se
manifestar nos seguintes termos:

1 – Na madrugada do dia 05 de janeiro de 2020, quatro pistoleiros
fortemente armados, invadiram a residência de CELINO FERNANDES e WANDERSON
DE JESUS RODRIGUES FERNANDES, pai e filho, respectivamente, moradores da
comunidade Cedro, município de Arari e os executaram com vários disparos
de arma de fogo nos seus rostos, sem oportunidade de qualquer defesa, fato
presenciado pela esposa, filhos e netos;

2 – Os pistoleiros chegaram à comunidade e às residências dos
camponeses dizendo serem da polícia e que estavam cumprindo ordem de
prisão. Trajavam coletes da Polícia Civil, todos encapuzados, arrombaram
as residências e assassinaram os lavradores;

3 – Os camponeses Celino Fernandes e Wanderson de Jesus Rodrigues
Fernandes, no ano de 2019, juntamente com mais três camponeses, inclusive
Adriana de Jesus Rodrigues Fernandes, filha de Celino, presidente da
associação quilombola de Cedro, FORAM REPRESENTADOS CRIMINALMENTE [1]
pelo delegado de Arari Alcides Martins Nunes Neto, denunciados pela
promotora Lícia Ramos Cavalcante Muniz, e aceita pelo juiz, Luiz Emilio
Braúna Bittencurt Júnior, tendo a época ficado presos por mais de 70
(setenta) dias no Presídio Regional de Viana;

4 – Há muito tempo a comunidade Cedro, principalmente os lavradores
assassinados, haviam denunciado aos órgãos do estado, Delegacia de
Polícia, Ministério Público, ITERMA, INCRA, IBAMA, SEMA, SEDIHPOP, o
conflito agrário envolvendo a comunidade e a família da desembargadora
Ângela Salazar, que cercam os campos públicos para criação de gado
bubalino, inclusive com cercas elétricas, local de onde os moradores
retiram o sustento de seus familiares, por meio do pescado e da criação
de animais;

5 – Essa política deliberada das autoridades de Arari de criminalizar as
lideranças sociais, com representações criminais, inquéritos policiais,
denúncias, decisões judiciais favoráveis ao latifúndio, tem servido
apenas para deixar ainda mais vulneráveis as lideranças sociais, que
legitimamente lutam pelos seus territórios;

6 – Não temos dúvidas que essa exposição das lideranças termina por
chancelar e encorajar particulares e seus pistoleiros a fazerem a vingança
com as próprias mãos, forma de criar uma cortina de fumaça sobre o
verdadeiro conflito: a luta pela terra;

7 – Sabemos que o verdadeiro objetivo dessas mortes e ameaças é criar
um clima de medo nas comunidades e suas lideranças a não continuarem a
luta, esses matadores de aluguel apenas cumprem o restante do trabalho já
iniciado pelas autoridades, de criminalização de lideranças, os
pistoleiros se acham no direito de eliminá-los.

8 – O governo Flávio Dino tem as mãos sujas de sangue dos povos da
terra, camponeses, quilombolas e ribeirinhos que brutalmente são
assassinados no Maranhão. Até agora, o governo nada fez para solucionar o
conflito, muitos menos expulsou os grileiros de terras públicas da baixada
ocidental maranhense;

9 – As mortes dos lavradores em Cedro não é algo isolado ou
desvinculado do que se vive hoje no Brasil, a política bolsonarista é uma
declaração de guerra aos povos tradicionais, indígenas, quilombolas,
ribeirinhos e camponeses em geral. O Governo está legalizando e armando as
milícias privadas de fazendeiros e anunciando uma criminosa exclusão de
ilicitude das forças militares (GLOs) em reintegrações de posse, para
transformar as forças armadas em uma verdadeira milícia pública,
institucionalizando a violência do Estado a serviço do grande capital e
do agronegócio. Além e claro da Medida Provisória – MP 910/2019, que
pretende instituir novas regras para a regularização de terras no país
(legalizar a grilagem de terras públicas).

10 – Diante disso, repudiamos toda e qualquer política do governo do
estado e do projeto bolsonarista que venha ameaçar a existência dos
povos, sua autonomia e dignidade.

11 – Assim, EXIGIMOS dos órgãos públicos e do governo do estado do
Maranhão a imediata elucidação desses bárbaros crimes, sejam os autores
processados e ao final, condenados às penas das leis brasileiras. Assim
como a imediata retirada de grileiros dos campos públicos da baixada
ocidental maranhense.

12 – Por fim, queremos manifestar nosso pesar a todos os familiares e a
comunidade de Cedro por esta imensa dor que todos passam, bem como,
manifestar nossa total solidariedade.

Arari, 05 de janeiro de 2020.

*

Fóruns e Redes de Cidadania do Maranhão
*

Associação Quilombola dos moradores do povoado Cedro
*

Associação Brasileira dos Advogados do Povo – ABRAPO
*

Animação dos Cristãos no Meio Rural – ACR/MA
*

Central Sindical e Popular – CSP Conlutas
*

Associação de moradores do povoado Flexeiras
*

Associação Comunitária dos moradores de Santa Maria 1
*

Associação comunitária dos moradores da comunidade de Santa Maria 2
*

Associação dos Trabalhadores Rurais do Povoado Cheiroso
*

Associação dos Pequenos Produtores Rurais Quilombolas de Assutinga
*

Associação dos Produtores Rurais Quilombolas das Ilhas do Teso
*

Associação dos Pequenos Produtores Rurais Quilombola de Flexeiras
*

União dos Moradores da Comunidade de Flores
*

Associação Quilombola dos moradores da Mata de São Benedito 3
*

Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Vargem
Grande/MA – SINTRANSPEM/VG
*

Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar de
Vargem Grande
*

Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Municipal de Cantanhede/MA
– SINTASPUMC
*

Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Cantanhede/MA
*

Associação Agroecológica Tijupá
*

Boscheto Luna de Gaia
*

Coletivo Andes Em Luta (CAEL) – MA
*

Coletivo Teatro da Sacola (DF-MA)
*

Conselho Indigenista Missionário – CIMI
*

Corrente Socialista dos Trabalhadores – CST (PSOL)
*

Fórum Maranhense de Mulheres
*

Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente da
Universidade Federal do Maranhão (GEDMMA/UFMA)
*

Marcha Mundial das Mulheres (MA)
*

Movimento em Defesa da Ilha
*

Movimento Hip Hop Militante Quilombo Urbano
*

Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu – MIQCB
*

Movimento Mulheres em Luta -MA
*

Movimento Pela Saúde dos Povos – MSP
*

ONG Arte – Mojó
*

Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados PSTU
*

Resistência (PSOL)
*

Sindicato dos (as) Trabalhadores (as) nas Entidades e Centrais Sindicais,
Associações, Federações, Órgãos de Classe, Entidades Não
Governamentais e Partidos Políticos no Estado do Maranhão – SINTES-MA
*

União Wicca do Brasil
*

Sindicato dos Servidores Públicos de São Bernardo/MA – SIDSERP/SB
*

Comissão Pastoral da Terra – CPT/MA
*

Cooperativa do Produtor Rural de Vargem Grande – COOPEVARG/MA
*

Conselho Regional de Psicologia – CRP/MA

Instituto Rondon- Porto Velho-RO

Pistoleiros fortemente armados atacam indígenas com apoio da Polícia

Latifundiários contratam pistoleiros e a polícia militar do Mato Grosso do Sul para atacar os indígenas Guarani Kaiowá da região de Dourados.

Nesta sexta-feira (03/01), indígenas Guarani Kaiowá foram atacados por um grupo de 40 pistoleiros fortemente armados na Perimetral Norte, no município de Dourados, estado do Mato Grosso do Sul. A ação organizada pelos latifundiários foi uma tentativa de expulsar os indígenas do local e resultou em 5 pessoas feridas a bala.

Esta ação criminosa que durou quase o dia inteiro, ocorreu dois dias depois em que latifundiários e pistoleiros invadiram e incendiaram a casa de reza da comunidade indígena Laranjeira Nhanderu, no município de Rio Brilhante.

Após os pistoleiros atacar os indígenas e receberem uma resposta a altura que evitou uma violência maior, os latifundiários chamaram a polícia para atacar ainda mais os indígenas. Policiais militares do DOF (Departamento de Operações de Fronteira) e Força Tática chegaram e foram para cima dos indígenas para reprimir e expulsá-los da área, mas foram expulsos pelos indígenas que revidaram e fecharam a rodovia Perimetral Norte por várias horas para resistir aos ataques.

 

Polícia atua em defesa do latifúndio

 

A ação criminosa dos latifundiários contou com o apoio irrestrito dos policiais militares da região. A polícia da região, seja civil, militar ou federal, é conhecida por atuar contra os indígenas e defender abertamente os latifundiários.

A sede do DOF, órgão da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Mato Grosso do Sul, está localizada em um prédio da Organização não-governamental ‘Salve’, formada por latifundiários para financiar a polícia da região.

Durante a ação, o comandante da Polícia Militar de Dourados, tenente coronel Carlos Silva, atacou os indígenas dizendo que “eles acabaram colocando fogo em alguns locais, tentaram obstruir a via e quando o DOF foi chamado para fazer apoio, também foi atacado, assim como o veículo da imprensa”. “São vários índios que não fazem parte nem da aldeia Bororó nem da Jaguapiru. Eles mesmos dizem que são de fora da cidade de Dourados, então não deveriam estar aqui provocando esse tipo de situação”, disse.

 

É preciso se reagir a altura

 

Os indígenas Guarani Kaiowá deram uma resposta a altura para os latifundiários, as dezenas de pistoleiros e as forças policiais que atuam como guarda dos latifundiários e não saíram do local e reagiram a altura, evitando de perder as áreas retomadas ou uma violência maior contra seus integrantes.

Apesar de alguns feridos, a resposta deixou os latifundiários sem reação e intimidou seus pistoleiros formado pela polícia local. Esse exemplo deve ser seguido e as organizações devem apoiar os indígenas e a formação de grupos de autodefesa fortemente equipados para reagir a violência dos latifundiários e do Estado.

A escalada de violência está aumentando a níveis altíssimos e que se agravou com o governo Bolsonaro em 2019. Bolsonaro é o governo dos latifundiários e está dando o aval para que os latifundiários tomem a decisão que quiserem para acabar com a luta pela terra.

É preciso organizar os comitês de autodefesa, lutar pelo direito ao armamento e derrotar o governo Bolsonaro o mais rápido possível, pois não dá para esperar 2022.

 

Veja abaixo imagens e vídeos da ação criminosa dos latifundiários em conjunto com a polícia militar:

 

          

Fonte: Causa Operária

É urgente a união da sociedade pelos defensores da Amazônia

Laércio Guajajara, Paulo Paulino Guajajara e Olímpio Guajajara, membros do grupo “Guardiões da Floresta”, retratados em abril de 2019, na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão; em
novembro, Laércio foi ferido no atentado que matou Paulino, o Lobo Mau, que tinha 26 anos -foto AFP-HO Survival International

A Amazônia brasileira é há anos território perigoso para ativistas ambientais e jornalistas investigativos. Em vista da falta de ação do governo atual frente à violência crescente, expressa em levantamentos, é
urgente a atuação da sociedade civil organizada.
Eles vieram procurando ouro.

No início deste ano, dezenas de garimpeiros invadiram uma reserva indígena de 1,4 milhão de acres no Amapá. Tão logo chegaram, o corpo de um líder indígena, Emyra, foi encontrado todo crivado por
facadas em um rio. Os moradores do local enviaram mensagens desesperadas de socorro para políticos e policiais. Muitos têm lembranças sombrias de invasões anteriores que quase exterminaram as tribos com infecções e violência.

O presidente Jair Bolsonaro pouco tem se importado com as reservas florestais e seus habitantes. Inclusive já se referiu a eles como “homens pré-históricos”, que precisam da “influência civilizadora do
desenvolvimento”. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que está sob
investigação criminal, afirmou que os relatos de violência contra grupos
indígenas são mera ficção.

O governo vem, sistematicamente, desregulamentado as proteções dos povos indígenas e de suas terras, assim como retirando financiamento de entidades públicas como o Ibama e a Funai responsáveis por investigar e processar crimes ambientais. O ataque ao meio ambiente não implica ameaça somente aos animais e aos recursos minerais e florestais, mas também às pessoas. Ativistas ambientais na América Latina, África Subsaariana e Sudeste Asiático não estão lutando apenas para proteger a biodiversidade mas também por suas próprias vidas.

Pelo menos 1.558 deles foram assassinados entre 2002 e 2017, de acordo com um estudo da revista Nature Sustainability —e as estatísticas estão crescendo. Aproximadamente três ambientalistas são assassinados por semana, de acordo com a ONG Global Witness. A questão aparece em 50
países, mas em poucos o problema é tão sangrento como no Brasil. Não é de hoje que o Brasil é um lugar perigoso para ativistas ambientais e jornalistas investigativos. Embora o presidente desmereça os
grupos indígenas, a cultura da impunidade —menos de 10% de todos os assassinatos de ativistas resultam em condenação— é anterior ao atual governo.
Sua assinatura vale muito.

Enquanto as autoridades se esforçam para desenvolver as indústrias florestais, que vão da mineração de ouro à produção de óleo de palma, há sinais de que a violência está se espalhando. As acusações cada vez mais agressivas de Bolsonaro contra ONGs ambientais são um sinal do que está por vir. Estamos formando parcerias para monitorar a violência perpetrada por agentes estatais e não estatais contra defensores ambientais na Amazônia brasileira.

Nossa equipe no Instituto Igarapé coletou uma quantidade maciça de dados com o Conselho Indigenista Missionário, a Comissão Pastoral da Terra, a Global Witness e a Human Rights Watch, entre outros. A avaliação que fizemos será ampliada entre ao longo de 2020 para abranger a totalidade da Bacia Amazônica, incluindo Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru. Suriname e Venezuela. Mas as descobertas preliminares são arrepiantes.

O escopo e a escala dos ataques contra defensores ambientais são mais amplos do que se pensava inicialmente. Entre 2012 e 2018, documentamos 2.540 atos violentos na Amazônia Legal, uma área que abrange nove estados brasileiros. Estes incluem 406 assassinatos, 378 tentativas de assassinatos, 33 agressões físicas, 339 suicídios, 1.303 ameaças de morte, e 81 casos de violência sexual. E esses dados não são completos: grande parte dos casos não é reportada. No geral, o Pará é o estado de maior risco para os ambientalistas (27% dos registros), seguido pelo Maranhão (25%) e Rondônia (14%).

Ataques violentos contra ativistas não são novidade. De fato, a matança tem sido constante nos últimos anos. Entre 2015 e 2018, houve uma média de 66 a 80 assassinatos por ano. Os indígenas representam um terço dos casos, seguidos pelos sem-terra. Trabalhadores rurais são alvos mais raros, representando 5,5% dos casos. Mais de 78% das vítimas são homens e 13% são mulheres. A maioria dos assassinatos desse período ocorreram no Pará (29%), seguido por Rondônia (23%) e Amazonas (13%). Suicídios também são um desafio —com uma incidência maior  no Amazonas, Tocantins e Acre.

A priori parece ter havido um aumento acentuado —mais de 50%— nas tentativas de assassinato de ativistas na Amazônia brasileira desde 2016. Novamente, as tentativas de assassinato estão concentradas no Pará (39%), seguido pelo Maranhão (29%) e Rondônia (11%). Os maiores alvos são líderes
indígenas e sem-terra, e tudo indica que os perpetradores sejam madeireiros, agricultores e grileiros.
No entanto, como a impunidade reina na região amazônica, a maioria dos assassinatos é mal investigada e raramente resulta em condenação.

Agora, mais do que nunca, é preciso intensificar os esforços para proteger os defensores do meio ambiente. No momento em que até evidências de desmatamento baseadas em satélite são questionadas e que os cientistas estão sob ataque, não podemos nos dar ao luxo de perder os mais próximos
da linha de tiro.

Dado que a liderança nesta questão não surgirá do atual presidente ou de seu ministro do Meio Ambiente, os brasileiros precisarão buscar por ação e soluções em outros lugares. No nível mais básico, os deputados precisam lançar uma CPI que inclua audiências públicas para mapear e interromper as redes criminosas que têm como alvo os ambientalistas. Também é imprescindível que eles ratifiquem o
Acordo de Escazú, que exige que os estados protejam aqueles que defendem a floresta. Outras entidades públicas, incluindo o Ministério dos Direitos Humanos, deveriam priorizar a questão, trabalhando na conscientização e fortalecendo os programas federais e estaduais para proteger ativistas, principalmente
líderes indígenas.

Enquanto isso, a Advocacia-Geral da União (AGU) e outras instituições precisam acelerar urgentemente seus esforços em proteger os ambientalistas. A AGU, por exemplo, deve garantir que seu grupo de trabalho voltado à Amazônia tenha os recursos adequados para investigar e processar aqueles que estão por trás do desmatamento ilegal. Também é importante mais apoio financeiro a instituições como o Incra, a Funai e o Ibama. Todavia, é preciso que as comunidades indígenas sejam protegidas e a corrupção e a impunidade sejam enfrentadas —do contrário tudo será inútil.

Robert Muggah é cofundador e diretor de pesquisa do Instituto Igarapé e diretor; Júlia Lins Franciotti é pesquisadora voluntária do instituto.
Da Folha de São Paulo

Em contraponto ao desmonte ambiental, MST planeja plantar 100 milhões de árvores

Plano nacional de reflorestamento do MST foi lançado no DF no sábado (14), com plantio de mudas e comemoração / Foto: Cristiane Sampaio/Brasil de Fato

Movimento coloca o reflorestamento na ordem do dia em lançamento de plano nacional para os próximos dez anos

O adolescente Rayuan Feitosa Maia, de 14 anos, mora no assentamento Gabriela Monteiro, em Brazlândia (DF), há cerca de três anos. Convivendo diariamente com as maravilhas do cerrado, ele conta que o cenário é um respiro para quem vive na zona rural e trabalha na roça.

“É uma sensação boa. Você se sente livre, no seu espaço e conectado com a natureza. Me faz muito bem”, conta o adolescente, que ajuda a família nas plantações de milho, feijão, mandioca e hortaliças. “Tudo orgânico. Nada de adubo químico ou veneno”, ressalta, ao contar com orgulho que aguarda o crescimento de uma agrofloresta recentemente plantada.

Ao vislumbrar o futuro das novas gerações, Rayuan diz esperar que seja “um tempo mais saudável e com mais natureza”, trazendo novas perspectivas para aqueles que ainda não vieram ao mundo.

A experiência do jovem está em consonância com o plano nacional “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis”, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que prevê o plantio de mais de 100 milhões de novas árvores nos próximos dez anos no Brasil. O lançamento do plano no Distrito Federal, no último sábado (14), é parte de uma rodada de eventos estaduais que ocorrem desde o fim de novembro.

“Eu acho que vai ser uma coisa boa, que vai influenciar não só nós, das futuras gerações, como as pessoas que estão com a gente [hoje]. Fazendo isso, acho que a gente vai inspirar outras pessoas. Vai ser bom futuramente. Vai mudar muita coisa”, acredita Rayuan.

Militantes do MST em ação de plantio de mudas, durante o lançamento do plano “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis”, no DF (Foto: Adonilton Souza)

A militante Bárbara Loureiro, da coordenação estadual do MST-DF, explica que a ideia é fazer um contraponto ao movimento de desmonte ambiental promovido pelo grande capital, cuja atividade predatória está intimamente relacionada à devastação das florestas.

“A reforma agrária sempre foi um projeto de enfrentamento à degradação do modelo do latifúndio, que sempre deixou terras degradadas a partir do monocultivo, mas também [de enfrentamento] aos elementos conjunturais de acirramento da crise estrutural do capital e de como ela tem avançado no sentido da privatização dos bens comuns”, aponta, citando a preocupação com o aumento do desmatamento no governo Bolsonaro.

Em outubro, por exemplo, houve um salto de 212% na devastação da Amazônia, principal foco do problema, segundo levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

O agrônomo Gabriel Brigueti, coordenador do Setor de Produção do Centro de Formação Gabriela Monteiro, conta que o Distrito Federal tem vantagens que devem facilitar a implementação local do plano. Entre elas, está a curta distância dos assentamentos para a capital federal.

“Estar próximo a uma cidade muito grande faz você ter mais acesso a vias comerciais, principalmente porque vai ter mais acesso a viveiro de mudas, sementes. Além disso, o DF é pequeno, então, você consegue fazer uma gestão maior de pessoas. Você consegue, em um curto espaço, garantir que uma grande massa trabalhe em determinada área”, explica, acrescentando que o MST terá a tarefa de articular pessoas e grupos em torno do projeto.

Segundo o movimento, não há uma meta específica de reflorestamento para cada estado, mas o DF deve dar sua contribuição ao país com plantios de pequi, tamarindo, pitanga, jatobá, baru, entre outros cultivos típicos da região do cerrado.

O objetivo é recuperar áreas que foram devastadas, produzindo e comercializando os cultivos resultantes do reflorestamento. Os cerca de 25 assentamentos e 15 acampamentos do MST na região do DF e do entorno devem se envolver diretamente na execução do plano.

“Ao mesmo tempo em que vamos dialogar com a sociedade sobre o caminho insustentável que a humanidade está tomando, a gente vai também conseguir um retorno socioeconômico pras famílias que estarão envolvidas nesse processo de cultivo e comercialização”, explica o dirigente nacional do MST Marco Baratto.

Edição: Julia Chequer

Brasil de Fato

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Feliz Natal e um 2020 com mais proteção à natureza, aos indígenas e ao homem do campo

O Instituto Rondon deseja a todos os brasileiros e aos habitantes da Terra, um FELIZ NATAL e um novo ano. Que 2020 seja de paz, amor e mais proteção à natureza, aos indígenas e ao homem do campo. Que no próximo ano possamos realizar nossos projetos de implantar o PROJETO BRASIL SEM FOME, que vai atender também à refugiados e desabrigados de todo o mundo. Que 2020 chegue com espírito de igualdade e menos egoísmo. Que nossos governantes sejam mais humanos e menos cruéis.

 

Feliz Natal

 

Feliz Ano Novo

 

Roberto Kuppê

Presidente

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A ESQUERDA LATINO-AMERICANA PRECISA DAR UMA RESPOSTA SOBRE A AMAZÔNIA: SERÁ QUE ELA CONSEGUE REJEITAR PETRÓLEO, PECUÁRIA E MINERAÇÃO?

O CAPÍTULO DA história da América Latina que teve início em 1998 com celebrações na Venezuela terminou com um golpe e violência na Bolívia. Como ocorre com todas as ondas, a “maré rosa” recua para revelar um terreno transformado. O cenário do movimento de esquerda que produziu governos socialistas variados em uma dúzia de países está quebrado e desiludido. As Américas Central e do Sul enfrentam uma direita ressurgente e o retorno da austeridade, muitas vezes por meio de ataques com gás lacrimogêneo. Esse estado de desordem marca também o terreno literal do continente: as florestas e montanhas foram abertas e rasgadas, seus minerais e hidrocarbonetos enviados para portos e embarcados para o exterior em nome de um projeto socialista cujas realizações se mostraram frágeis, temporárias e superficiais.

Compreensivelmente, nos últimos tempos, a preocupação global com o futuro da Amazônia se concentrou no Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro acelerou a destruição da floresta tropical com alegria fascista. Mas, sob o arrepiante desprezo desse regime pela natureza, tratando-a como sendo apenas um estoque de recursos a serem colhidos, existe uma verdade inquietante: sua agenda de extração desenfreada representa uma diferença de grau e estilo, e não de tipo, daquela adotada nas últimas duas décadas por todos os principais países amazônicos. Isso inclui os governos da maré rosa de Venezuela, Bolívia, Equador e Brasil, que promoveram a mineração, a extração de petróleo e a agricultura industrial com a mesma diligência que seus colegas neoliberais no Peru e na Colômbia.

Examinar esse legado não é descartar os ganhos sociais que ele tornou possível, ainda que brevemente. Esses ganhos foram reais e, em alguns casos, impressionantes. Os novos gastos estatais em saúde, educação e programas de subsídios por bloco melhoraram a vida de muitos milhões de pessoas em uma região definida pela imensa desigualdade e uma profunda pobreza endêmica. E, no entanto, como muitos observaram desde o início, esses ganhos só poderiam ser efêmeros, com base nos aumentos orçamentários de um boom de commodities único de uma década impulsionado pela China e, em menor grau, pela Índia. Mesmo antes dos preços do minério e do petróleo começarem a cair em 2012, as coalizões por trás de muitos governos da maré rosa começaram a desmoronar sob as contradições e trocas do que o cientista social uruguaio Eduardo Gudynas, um crítico precoce e influente da maré rosa à esquerda, chamado “neoextrativismo”. Acabou que essa versão do extrativismo, apesar de defendida de varandas de palácios ornadas com bandeiras socialistas e anti-imperialistas, não era tão diferente do modelo praticado por séculos de domínio colonial, militar e neoliberal. Sua principal inovação foi negociar cortes maiores nas crescentes exportações de recursos primários.

Campo de mineração de ouro informal Esperança IV, perto do território indígena Menkragnoti, no Pará, em 28 de agosto de 2019.

Campo de mineração de ouro informal Esperança IV, perto do território indígena Menkragnoti, no Pará, em 28 de agosto de 2019.

Foto: João Laet/AFP via Getty Images

Os rendimentos dos pontos percentuais extras foram muito bons enquanto duraram. Eles também obscureceram o fracasso em avançar um projeto de esquerda democrática para desafiar cinco séculos de espoliação, desapropriação e dependência sistêmicas. O neoextrativismo “possibilitou formas importantes de inclusão socioeconômica e empoderamento político para as massas, ao mesmo tempo em que prejudicou transformações mais radicais”, conclui Thea Riofrancos em “Resource Radicals” (Radicais de recursos), seu próximo estudo sobre a política do extrativismo da maré rosa.

Na Bolívia e no Brasil, as florestas estão em chamas.

No lugar dessas transformações mais radicais, o neoextrativismo acelerou o ciclo de destruição exigido pelo papel histórico da região na economia global. As consequências políticas e ecológicas disso foram mais acentuadas nas florestas tropicais, florestas secas e nas cordilheiras ocidentais que são as fontes do sistema amazônico. À medida que os leilões de mineração e petróleo se multiplicavam, as coalizões de trabalhadores urbanos, pequenos agricultores e povos indígenas se separaram.

“Esquerda ou direita, a ideologia é a mesma: roube nossa terra e destrua o meio ambiente”, disse José Gregorio Díaz Mirabal, coordenador venezuelano da federação de organizações indígenas da Amazônia, ou Coica. “Na Bolívia e no Brasil, as florestas estão em chamas.”

O RELATO DESSA história ocorre, como tudo agora, à luz da crise climática. Como o extrativismo condena a floresta amazônica, um bioma central para qualquer solução concebível para essa crise, uma nova esquerda latino-americana terá de rejeitá-la.

Essa ideia não é nova. Os debates sobre como a América Latina poderia costurar suas veias e criar alternativas a um modelo de “desenvolvimento” ocidental baseado nas exportações de commodities foram centrais para o firmamento de movimentos sociais que os partidos da maré rosa levaram ao poder. Durante os anos 1990, ativistas, estudiosos e figuras políticas da região se empenharam em buscar críticas à globalização e à armadilha extrativista. Antes de Hugo Chávez anunciar a chegada do nacionalismo de recursos “anti-imperialista”, assegurando a estatura da Venezuela e financiando programas antipobreza com rendimentos do petróleo e de projetos de mineração no sul do país, as figuras mais inspiradoras da esquerda latina e global foram os zapatistas no sul México, que exigiam um “mundo onde cabem muitos mundos”. Em centenas de reuniões em cidades pequenas e grandes capitais – das quais o Fórum Social Mundial era apenas o maior –, as bandeiras de arco-íris de grupos indígenas recém-politizados misturavam-se a símbolos socialistas e bolivarianos nos debates sobre como construir uma nova América Latina, que seria socialmente justa e ecologicamente sábia.

Cerca de 30 mil pessoas se reúnem em Porto Alegre, em 31 de janeiro de 2002, em uma marcha para inaugurar oficialmente o Fórum Social Mundial de cinco dias.

Cerca de 30 mil pessoas se reúnem em Porto Alegre, em 31 de janeiro de 2002, em uma marcha para inaugurar oficialmente o Fórum Social Mundial de cinco dias.

Foto: Douglas Engle/AP

O novo pensamento encontrou sua expressão mais completa no conceito de buen vivir. Como princípio político ou ideologia organizadora, “viver bem” é uma espécie de fusão de ideias indígenas e ocidentais sobre limites, solidariedade, fontes de felicidade humana e equilíbrio da natureza. A expressão sugere uma forte crítica ao mercado, ao pensamento de curto prazo, o materialismo e a exploração das pessoas e do meio ambiente. Foi promovida e adotada pelos governos de Cuba, Venezuela, Argentina, Paraguai, Uruguai e Peru, mas está mais estreitamente associado à Bolívia e ao Equador. Os ex-presidentes Evo Morales e Rafael Correa fizeram campanha em plataformas buen vivir e consagraram o conceito em suas respectivas constituições da maré rosa.

O uso de símbolos e ideias indígenas estava dilapidado quando conheci Alberto Acosta em uma marcha de protesto na cidade de Zamora, no sul do Equador, no final de 2012. Economista de alta estatura, com uma postura um tanto severa, Acosta foi o primeiro ministro de minas e energia de Correa e presidiu a convenção que ganhou as manchetes globais pela inclusão do buen vivir e seus semelhantes “direitos da natureza” na constituição de 2008. Três anos depois, Acosta havia deixado o governo e, desde então, presidiu diferentes tipos de conferências, como a “Movimentos sociais pela democracia e pela vida”, reunidas para organizar a oposição de esquerda a Correa e ao neoextrativismo da maré rosa.

Na manhã em que o entrevistei, ele falou enquanto marchava atrás da bandeira de sete partidos aliados de esquerda que haviam sido fundados em oposição ou deixado a coalizão “Unidade” de Correa. “Não há nada de novo no plano de desenvolvimento de Correa”, ele me disse. “Ele cita os teóricos das escolas dependentista, mas sua ideia é o mesmo modelo econômico de periferia central de exportação de matérias-primas. Ele substituiu o tio Sam pelo tio Chen” – a China – “para sustentar seus programas sociais e sua posição política à custa do desenvolvimento real. Nós resistimos a esse modelo da mesma forma como resistimos ao neoliberalismo.”

Como o extrativismo condena a floresta amazônica, uma nova esquerda latino-americana terá de rejeitá-la.

Eu estava no Equador na época fazendo uma reportagem que ilustrava a crítica. O governo de Correa havia aprovado planos para uma megamina de cobre e ouro a céu aberto na Cordilheira do Condor, um importante ponto biológico, corredor de espécies e divisor de águas no noroeste da Amazônia que abrigava milhares de povos indígenas, majoritariamente Shuar, e agricultores mestiços. A mina, então nos estágios iniciais de construção por um conglomerado chinês chamado ECSA, já estava deslocando comunidades. Quando concluída, deslocaria muito mais e poluiria a terra e a água de quem lá permanecesse. Correa criminalizou a oposição ao projeto e atacou seus críticos como patetas e agentes imperialistas. Em Quito, um ativista da ONG Clínica Ambiental me mostrou o nome de centenas de ativistas que estavam na prisão ou encarcerados. “Como Correa representa a esquerda, fazer oposição a ele rende acusações de se estar apoiando o antigo regime que levou todos à falência. Mas ele provou ser neoliberal com toques redistributivos. Ele evitou pactos com os EUA, mas vendeu o país para a China.”

Na Bolívia, uma versão mais suave da mesma dinâmica começou a ocorrer em 2012. A expansão da mineração e da agricultura industrial pelo governo de Morales causou deserções precoces de figuras-chave nos movimentos sociais forjados durante as chamadas guerras de água e gás do início dos anos 2000, antes de levar Morales ao poder. A grande oportunidade veio em 2011, quando Morales anunciou planos para construir uma estrada de 300 quilômetros através das florestas tropicais primárias do território indígena Isiboro Sécure. O governo alegou que seu objetivo era fornecer melhores serviços sociais para aldeias remotas, mas os grupos indígenas bolivianos entenderam corretamente a rodovia como parte de um projeto de longo prazo para industrializar as florestas de terras baixas, eventualmente conectando-as à rede de transporte da Amazônia encontrada nos documentos de planejamento de um superprojeto liderado pelo Brasil chamado Iniciativa para a integração da infraestrutura regional da América do Sul, ou IIRSA. (A rodovia é financiada pelo BNDES e acompanha de perto as terras sobre as quais a gigante petrolífera brasileira Petrobras detém direitos de exploração.) À medida que a resistência se espalhava, Morales invadiu os escritórios de grupos indígenas que se opunham à rodovia e substituiu à força os líderes por aliados seus. Ele acusou publicamente seus críticos, incluindo o antigo presidente da Confederação dos Povos Indígenas da Bolívia Adolfo Chávez de serem “agentes da USAID” – a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional – e os acusou de crimes graves. Eles se esconderam até que a Suprema Corte do país reverteu as acusações.

Da esquerda para a direita: o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o presidente da Bolívia, Evo Morales, e o presidente do Equador, Rafael Correa, chegam a um desfile militar em comemoração aos 200 anos do início do movimento de independência da Bolívia em La Paz, em 16 de julho de 2009.

Da esquerda para a direita: o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o presidente da Bolívia, Evo Morales, e o presidente do Equador, Rafael Correa, chegam a um desfile militar em comemoração aos 200 anos do início do movimento de independência da Bolívia em La Paz, em 16 de julho de 2009.

Foto: Patricio Crooker/AP

“Nós apoiávamos Morales e Correa porque os partidos de esquerda prometeram respeitar nossos direitos, mas eles quebraram as promessas e enfraqueceram nossas organizações”, disse-me Chávez recentemente. “Tínhamos um plano coerente para ajudar o governo a construir indústrias sustentáveis que protegessem as florestas e os rios. Os padrões nunca mudaram. Ainda estamos sujeitos a transnacionais que têm igualmente relações com partidos de esquerda e direita igualmente.”

Não foram apenas os autodeclarados países bolivarianos da maré rosa que adotaram o neoextrativismo. No Brasil, os governos do Partido dos Trabalhadores de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff reforçaram as proteções em grandes áreas da Amazônia, ao mesmo tempo em que adotaram a visão de longo prazo da IIRSA: uma região pontilhada de barragens para abastecer as operações de mineração e conectada por estradas e ferrovias para facilitar o fluxo cada vez maior de matérias-primas para os portos nas costas do Atlântico e do Pacífico. Nas duas administrações, a mineração se expandiu por todo o país, inclusive na Amazônia. Mas foi outra expansão mais silenciosa que provavelmente teve o maior impacto climático: o “deserto verde” da agricultura industrial continuou a consumir as florestas secas e savanas remanescentes do Cerrado, um sumidouro de carbono que antes era maciço, mas que desaparece rapidamente, que se espalha por meia dúzia de estados no planalto central do Brasil.

O desafio enfrentado por uma esquerda pós-extrativista transformacional é assustador. Para tomar e manter o poder, precisará responder à acusação de Correa de que os defensores do pós-extrativismo querem que os pobres do continente vivam como “mendigos em um saco de ouro”. Será necessária uma visão e um plano para resolver o enigma proposto pelo acadêmico de esquerda e crítico de Correa, Pablo Ospina Peralta: “Como se revoluciona a economia quando o governo depende da saúde da economia que procura revolucionar?”
Quaisquer que sejam as especificidades da resposta, o caso se beneficiará das falhas de séculos de extrativismo. A América Latina, onde foi concebido o condomínio fechado, é a região mais desigual do mundo, com profunda pobreza estrutural cada vez mais agravada pela poluição e pelos efeitos da crise climática. O fato de que essas questões podem ser fortemente emparelhadas ficou visível no mês passado nas ruas de Quito, no Equador. Após uma greve de 11 dias em protesto contra um pacote de austeridade anunciado, o presidente Lenin Moreno, que sucedeu Correa em 2017, cedeu ao encontro com líderes indígenas que estavam à frente dos protestos de rua em oposição à proposta de cortes sociais e reformas trabalhistas – e pelo fim da exploração de petróleo e da mineração na Amazônia. No Chile, onde a devastação causada por décadas de mineração desenfreada tornou-se impossível de ignorar, manifestantes urbanos estão agitando bandeiras mapuches, cujo simbolismo colorido de buen vivir retrata sangue indígena, terra, sol, montanhas cobertas de neve e esperança.

A América Latina detém quase metade do cobre e da prata do mundo, um quarto do níquel e da bauxita, e reservas dispersas de metais “tecnológicos” usados em computadores, painéis solares e células de combustível de última geração.

“Algo está se agitando”, disse Arturo Escobar, estudioso colombiano-americano cujo livro de 1995 “Encountering Development (Encontrando o desenvolvimento)”, deu forma a debates emergentes sobre desenvolvimento e crescimento. “Existem fissuras visivelmente crescentes no consenso dominante sobre o modelo político, econômico e de desenvolvimento, incluindo o ‘consenso sobre commodities’ dos anos 2000 e 2010 que causou uma devastação ecológica maciça. As pessoas estão novamente falando de uma crise civilizacional, que, na melhor das hipóteses, leva à possibilidade de uma nova época que questione as antigas suposições e se mova em direção a uma política de buen vivir – com orientação mais comunitária, ecológica e espiritual.”

Pode parecer absurdo que possa surgir um movimento para construir uma nova ordem social e satisfaça as necessidades humanas enquanto protege e regenera os rios e florestas. Mas não é mais irrealista do que acreditar que uma economia baseada no consumo e no crescimento possa alcançar o equilíbrio ecológico.

Dragas no rio Madre de Dios, no território indígena de Tacana, perto de La Paz, na Bolívia, em 31 de agosto de 2019.

Dragas no rio Madre de Dios, no território indígena de Tacana, perto de La Paz, na Bolívia, em 31 de agosto de 2019.

Foto: Ernesto Benavides/AFP via Getty Images

As chances de sucesso de tal movimento dependerão do sucesso de movimentos aliados em outros lugares. Os mercados de commodities escreveram grande parte da história da América Latina, e a demanda global por matérias-primas continuará a exercer uma poderosa influência. Isso será verdade mesmo em uma versão “esverdeada” do sistema atual. Uma mudança global dos combustíveis fósseis pouparia a Amazônia de mais devastação do desenvolvimento de petróleo e gás, mas não de ser aberta para monoculturas ou destruída na busca por metais raros para construir iPhones com carregamento solar atualizados anualmente e o mais recente SUV de desempenho totalmente elétrico da Jaguar. Um sistema baseado em crescimento que funcione em uma rede descarbonizada ainda exigirá insumos massivos dos materiais primários encontrados nos solos e rochas dos nove países da Amazônia. A América Latina detém quase metade do cobre e da prata do mundo, um quarto do níquel e da bauxita (alumínio), e reservas dispersas de metais “tecnológicos” usados em computadores, painéis solares e células de combustível de última geração. Em um artigo recente sobre a indústria de lítio da Bolívia para a New Republic, a colaboradora do Intercept, Kate Aronoff, observa que alimentar a economia atual com energias renováveis consumiria as reservas mundiais de lítio em um período muito curto de tempo. Tentar manter uma versão “verde” da sociedade de consumo global pode levar a uma disputa por metais raros capaz de fazer com que as ondas de extrativismo anteriores pareçam suaves em comparação.

Se a América Latina se recusasse a abrir suas veias para esses recursos, encerraria seu papel como banco de recursos global, que começou de maneira não consensual com as economias escravistas do século XVI, que carregavam navios europeus com ouro, prata e açúcar. Existem pequenos precedentes para essa recusa. El Salvador proibiu toda a mineração de metais em 2017 para proteger sua água. A Costa Rica há muito tempo aplica uma proibição limitada de mineração. Em todos os países onde a mineração é desenfreada, os movimentos estão se organizando por trás de agendas pós-extrativistas, guiadas pelos valores ecossocialistas do buen vivir.

Os grupos indígenas são apenas parte deste projeto, mas estão na frente e desempenham um papel único. Eles trazem um conhecimento vivo de alternativas e são os que estão ameaçados mais diretamente com a extinção. Uma das vozes indígenas mais proeminentes de um curso diferente é Juan Carlos Jintiach, coordenador de planejamento econômico da COICA e, muitas vezes, a única voz indígena presente em ambientes como a Convenção sobre Diversidade Biológica, as Nações Unidas e o Banco Mundial. Ele não é ingênuo nem resignado, mas se concentra nas gestações das emergências sobrepostas do momento.

“Este é um momento confuso e arriscado”, disse Jintiach. “É um momento que exige mobilizações sociais que transcendam esquerda e direita e nos conectem uns aos outros e com a terra. O buen vivir contém os conceitos, mas é uma linguagem que a outra sociedade nem sempre entende. Estamos construindo alianças para mostrar que há outra maneira. Não é nossa luta, é de todos. Neste momento, há uma tempestade, uma forte tempestade. Mas, no momento em que acordarmos, veremos o céu.”

Tradução: Cássia Zanon

The Intercept

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Websérie retrata turismo de base comunitária na Amazônia

Último episódio da 5ª temporada da websérie Pé no Parque vai ao ar nesta quarta-feira (11), destacando a importância do turismo para a conservação da biodiversidade no Parque Nacional de Anavilhanas

O turismo em áreas naturais e a importância de conservar a natureza são os principais aspectos retratados no quarto e último episódio da 5ª temporada do Pé no Parque, movimento que busca estimular o turismo em áreas de proteção ambiental a partir de produtos audiovisuais. A temporada se passa no Parque Nacional de Anavilhanas, no Amazonas e o último capítulo será lançado nesta quarta-feira (11/12), no site do Pé no Parque e no canal do WikiParques no Youtube.

A imensidão verde da Amazônia traz ao turismo diversas rotas e opções de passeio para conhecer paisagens exuberantes, a biodiversidade, a cultura ribeirinha e a história local. A websérie traz a beleza singular de Anavilhanas e seu arquipélago formado por cerca de 400 ilhas fluviais o segundo maior do mundo. Em meio a paisagens de tirar o fôlego, é possível descobrir aspectos diferentes do parque, como a força do turismo de base comunitária como chave para conscientizar as pessoas sobre o valor da floresta em pé.

“No último episódio, a gente mostra como a riqueza da floresta é um atrativo e quem nos apresenta toda essa riqueza são os moradores locais. As pessoas que vivem lá há gerações e conhecem a floresta com a palma da mão. São elas que, por meio do turismo de base comunitária, valorizam ainda mais a floresta que dá a eles alimento e remédio, além de uma fonte de renda a partir do turismo. Ou seja, um motivo a mais para todo mundo colocar o pé no parque e conhecer o Parque Nacional de Anavilhanas”, conta a roteirista da websérie, Duda Menegassi.

A websérie é dirigida pelo fotógrafo Marcio Isensee e Sá, diretor do documentário Sob a Para do Boi (2018), e produzida por WikiParques e ((o)) eco, com patrocínio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. “O turismo associado a áreas naturais é um fator gerador de renda em diferentes regiões do Brasil. Por meio da websérie e do movimento queremos mostrar a importância que a conservação da biodiversidade tem para assegurar a sobrevivência de ecossistemas e o sustento de milhares de famílias que encontram na preservação ambiental uma oportunidade de negócio”,  destaca a diretora-executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Malu Nunes.

O parque

Localizado a 200 quilômetros de Manaus (AM), o Parque Nacional de Anavilhanas é acessado por Novo Airão e pode ser visitado o ano todo. Estão entre os atrativos do parque passeios aquáticos; trilhas terrestres; observação de flora e fauna; escalada em árvore, voo panorâmico e interação com botos-vermelhos. De setembro a fevereiro, no período de seca, o parque oferece ao turista belas praias de areia branca. Nos meses de cheia, o turista é levado a trilhas aquáticas para conhecer florestas alagadas de igapó. Não há cobrança de ingresso para acessar o parque e as atividades são oferecidas por agentes de turismo.


Sinopse
Episódio 1: Amazônia em Pé
A 200 quilômetros de Manaus (AM), o Parque Nacional de Anavilhanas protege o segundo maior arquipélago fluvial do mundo. Com cerca de 400 ilhas em meio ao Rio Negro, o parque é o local perfeito para conhecer a flora, a fauna, as águas, a história e a cultura amazônica, demonstrando a importância de conservar a natureza.

Episódio 2: Origens do Caboclo Ribeirinho
Além dos atrativos naturais, Anavilhanas preserva a cultura do caboclo ribeirinho com artesanato com palha-inajá e culinária a base de peixe, frutos e mandioca. Outros ativos históricos são as ruínas de Velho Airão, o antigo centro comercial do Ciclo da Borracha, e artes rupestres esculpidas por povos indígenas.

Episódio 3: Rio Negro
Com suas águas escuras, o Rio Negro transforma a paisagem de Anavilhanas ao longo do ano com seus períodos de cheia e seca. O rio é conservado por um mosaico de áreas protegidas e reserva belas paisagens ao turista, como as florestas alagadas de igapó.

Episódio 4: A Floresta é o Atrativo
O Parque Nacional de Anavilhanas possui uma série de atrativos que fortalecem o turismo de base comunitária. A visitação nutre a sensação de pertencimento da população local e reforça a importância de conservar a natureza.

Sobre Movimento Pé no Parque

O movimento Pé no Parque é uma iniciativa de valorização dos parques nacionais brasileiros que utiliza o poder transformador do audiovisual como ponto de partida para engajar mais pessoas a visitarem e entenderem a importância dessas áreas para sua qualidade de vida e para o desenvolvimento do país. O turismo em unidades de conservação é essencial, assim como a educação ambiental para tornar o visitante cada vez mais consciente. O movimento é uma união da Associação O Eco, WikiParques e Fundação Grupo Boticário. A websérie do movimento foi lançada em 2018, durante o IX Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC) e a cada temporada apresenta um parque diferente, com episódios que retratam a cultura, aspectos naturais, a história e os personagens que dão rosto e voz aos parques nacionais brasileiros. As quatro temporadas de Pé no Parque já foram assistidas por mais de 1 milhão de pessoas.

Fundação Grupo Boticário

A Fundação Grupo Boticário é uma das primeiras instituições ligadas à iniciativa privada voltadas à conservação da natureza no Brasil. Desde 1990, é uma das principais financiadoras de projetos ambientais do país, com cerca de 1,6 mil iniciativas apoiadas em todas as regiões. Conserva duas reservas naturais, somando mais de 11 mil hectares de Mata Atlântica e Cerrado, os dois biomas mais ameaçados no país. A Fundação também atua para que a conservação da biodiversidade seja priorizada nos negócios e nas políticas públicas, além de contribuir para que a natureza sirva de inspiração ou seja parte da solução para diversos problemas da sociedade.

VÍDEO- Tudo o que você precisa saber sobre o desmatamento na Amazônia em 2019

O desmatamento na Amazônia cresceu 29,5% entre 1º de agosto do ano passado e 31 de julho de 2019. É a maior taxa desde 2008. Só para você, leitor, ter uma ideia, o desmatamento em 2019 foi o terceiro pior da história. O que o Governo faz em contrapartida? Flexibiliza a aplicação de multas e exonera servidores do IBAMA e ICMBIO. Enquanto isso, as queimadas continuam… Veja no vídeo acima um resumo e o histórico da situação da Floresta Amazônica.

Fonte: Projeto Colabora

 

Festival de Música: Instituto Rondon tem projeto para melhorar a música brasileira

Música de qualidade. Doses cavalares de música de qualidade na veia da juventude brasileira. De Norte a Sul, o brasileiro precisa de uma overdose de boa música. Chega de música ruim sendo vendida como cultura. Nos últimos 20 anos o Brasil foi tomado por um tsunami de músicas de péssima qualidade. “A música brasileira tá uma merda”, diz Milton Nascimento. “As letras, então. Meu Deus do céu. Uma porcaria”, emenda o cantor e compositor de 76 anos de idade.  “Não sei se o pessoal ficou mais burro, se não tem vontade [de cantar] sobre amizade ou algo que seja. Só sabem falar de bebida e a namorada que traiu. Ou do namorado que traiu. Sempre traição.”  Milton está mais certo do que nunca. Bebidas, drogas, sexo. Esse é o resumo da nossa música atual. O jovem não tem para onde correr.

Nesse sentido, o Instituto Rondon presidido pelo jornalista Roberto Kuppê lança uma ideia de festival.  Um projeto musical que envolveria toda a juventude brasileira, de Norte a Sul.  O projeto de nome  “Festival de Música Chico Buarque do Brasil”, ou FMCBB, poderia ser uma mudança nos rumos de nossa cultura que está deturpada. O primeiro FMCBB seria com com composições exclusivas interpretadas por Chico Buarque.

Por que Chico Buarque (*)?

Porque simplesmente o Brasil tem o maior e o melhor de todos os compositores vivos que se chama Chico Buarque. Dono de uma coleção de músicas nunca vista, um verdadeiro tesouro. E não é só na música que Chico é sucesso. Na literatura também. Seria mais do que uma homenagem ao cantor, compositor  e escritor, que ganhou recentemente o Prêmio Camões de Literatura, prêmio esse que será entregue a ele em abril, em Lisboa, Portugal.  O governo português anunciou que a entrega do prêmio acontecerá no dia 25 de abril de 2020, em Lisboa. O Prémio Camões ou Prêmio Camões, instituído pelos governos do Brasil e de Portugal em 1988, é atribuído àqueles autores que contribuíram para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. Poxa, não é pouca coisa! Nada mais justo do que homenagear esse grande brasileiro.

Como será o festival?

O FMCBB será de âmbito nacional podendo participar até cantores portugueses. Através de um aplicativo de celular (app), serão inscritos candidatos de todo o Brasil e países de língua portuguesa.  Através deste aplicativo serão selecionados mil participantes, dentre os que enviarem um vídeo interpretando uma das músicas de Chico Buarque. Feito isso, uma rede de TV (Globo, de preferência), fará a seleção de 300 participantes do festival que será desenvolvido em um, dois ou três meses.  O prêmio para o melhor intérprete seria de R$ 1 milhão de reais entregues pelo próprio Chico Buarque. Os segundo, terceiro, quarto e quinto lugares, receberiam de R$ 500 mil a R$ 100 mil cada, respectivamente.

Para ajudar as comunidades mais pobres como Paraisópolis (SP), Rocinha (RJ) dentre outras, serão distribuídos cerca de 10 mil violões com cifras musicais de Chico Buarque.

Esse festival será realizado em 2020, podendo repetir de dois em dois anos, homenageando Milton Nascimento, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Zeca Pagodinho, Osvaldo Montenegro, sempre intérpretes vivos e atuantes na música brasileira.

O projeto do festival está sendo configurado. Os interessados devem entrar em contato através do email do Instituto Rondon: contato@institutorondon.com.br ou pela zap: 061-98254-1644. 

 

 

(*) Obs: Chico Buarque não está ciente desse projeto. Ainda será comunicado oficialmente caso o projeto vá adiante.

 

New York Times diz que sob Bolsonaro, Amazônia está completamente sem Lei

O jornal New York Times publicou nesta quinta-feira (5) uma reportagem especial sobre os impactos negativos do governo de Jair Bolsonaro na floresta amazônica. Sob o título “A Amazônia está completamente sem lei: a floresta tropical após o primeiro ano de Bolsonaro”, a reportagem culpa o presidente pelo aumento deste ano nos índices de desmatamento do bioma.

O desmatamento na maior floresta tropical do mundo, um importante amortecedor contra as mudanças climáticas, disparou sob o presidente Jair Bolsonaro do Brasil”, diz o texto, logo em seus primeiros parágrafos. Em seguida, a reportagem de  conta que Bolsonaro prometeu liberar a exploração da indústria na floresta, além de reduzir fiscalizações.

“E seu governo seguiu adiante, cortando fundos e pessoal para enfraquecer a aplicação das leis ambientais. Na ausência de agentes federais, madeireiros, fazendeiros e mineiros entraram [na floresta], encorajados pelo presidente e ansiosos para satisfazer a demanda global”, relata.

A reportagem ainda sustenta que o governo de Bolsonaro “fez alguns acenos” para combater o desmatamento ilegal, mas o presidente “reafirmou sua antiga posição de desdém pelo trabalho de conservação”.

“Ele disse uma vez que a política ambiental do Brasil estava ‘sufocando o país’; prometeu em sua campanha que nenhuum centímetro quadrado de terra seria designado para os povos indígenas; e, no mês passado, ele ignorou dados oficiais sobre o desmatamento”, cita o texto.

O jornal americano já fez diversas reportagens denunciando o descaso de Bolsonaro com relação ao meio ambiente. Em setembro, quando os incêndios na floresta amazônica se intensificaram, o NYT deu amplo destaque à crise ambiental brasileira, além de ironizar a postura do presidente, que culpava as ONGs como responsáveis pelas chamas.

Revista Forum

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